Gravitação estocástica

Poeticamente confesso



Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

Cetinosa como tua pele

Corrente indiana, corrente africana, corrente de ar! Corrente de grana, corrente do amor, corrente de maré! No pescoço nu, uma gota de suor que procura o colo faz linha corrente com o arrepio na espinha ao acordar a cintura sob o som de bumbum da zabumbada, arrematada pelo rebolado à perna solta.
Diz-que-me-diz-que vem de lá, que vem de cá, pra lá e pra cá, descompassar na beira do mar, e voltar ao ritmo, com os pés aflitos, pra frente e pra trás, num vaivém, cheio de capricho, que desmancha o cacho de quem vai com ele gingando com ela, e é leva-e-traz, fingindo nunca mais, enquanto o canto encarna nos quadris em febre via batida da exaltação, até ricochetear na cintura, mais uma vez, agora enviesada, antes arrestada pelo angular dos cotovelos de um braço-de-ferro que se fez meigo.
Ah! Corrente de mim alinhavada na chuva sob a batucada desatinada, dando as mãos pro céu, amor ao léu, adeus ao fel... era tudo de papel? Igual ao barquinho lânguido que ficou lá longe, sem graça, envelhecido por ter sido esquecido por quem o fez porque fez, sem pensar na poça, sem sonhar com o lago, sem desejar o rio, sem mergulhar no mar.
Diz-que-me-diz-que eu não vou lá, nem fico cá, pra ontem e pra amanhã, a descompensar na beira d´alma, e voltar ao tino, com os sentimentos inquietos, pra dentro e pra fora, em perpétua hesitação pela constante obstinação que aperta os laços de quem vai com ele gingando com ela, e é flor-da-imperatriz, interpretando o excesso, enquanto o samba veste o coração em chama via batida da solidão, até ricochetear na cintura, mais uma vez, agora sem ninguém, antes contornada pelo aconchego da fantasia de um corpo-a-corpo que se fez prazer.
Fiquei pra trás, ainda reluzindo meu violeta furta-cor que acobertou o sensualismo carnal de uma mocidade dançarina, desinibida, corrente do amor, fluxo e refluxo das marés carnavalescas, acolhidas no colo suado de quem festeja o sol, festeja a lua, e beija a própria imagem no espelho sem refletir o vem vindo do que se será na gincana do existir.
Fiquei pra trás, ainda lustrosa e macia, mas sem valor algum, pois sou justa demais para cingir o molejo deste tempo, que não é mais o meu, pois sou arcaica demais para cingir a transgressão destas histórias, que não são mais as minhas, pois sou só uma pequena, uma pequenina, só uma tímida e pequenina saia com trejeitos de saiote, demais vulgar para acompanhar as linhas do teu corpo um dia tão pecador, um dia tão virtuoso, tão distante deste cetim hoje desmerecido por tuas mãos, mas ontem enternecido por te sido, contigo, o primeiro tato de quem age sem tato ao tocar a primeira camada de tremor de uma pele cetinosa.
Fecha a gaveta, e me deixa rolar entre os retrós de seda torcidos, que costuram pétalas de meigas lembranças para cobrir a tristeza pela minha faceirice esquecida.

postado por: Gisele Centenaro 4:35 PM



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Domingo, Fevereiro 12, 2006

Faz de conta

- Tia, e se a gente decorasse um capítulo inteiro do Harry Potter pra fazer o teatro?
- Boa idéia. Quem escolhe o capítulo? A Vitória e o Yuri já leram o Cálice de Fogo inteirinho?
- Não, tia. Eu tô na metade. E o Yuri não gosta de ficar lendo. Ele prefere os videogames. Só que a Raysa já decorou um monte de parágrafos. É por isso que ela quer fazer o Harry Potter. Eu acho que a gente devia bolar outra coisa. A Giovanna sempre tem idéias legais no meio das brincadeiras. Ela podia inventar uma historinha pra nós, com bruxas, diário da princesa, Totó e Homem-de-Lata, igual no Mágico de Oz.
- Chiii... que confusão, Vick! No Mágico de Oz não tem diário de princesa. Você está confundindo os roteiros dos filmes.
- Mas aí fica mais legal, tia. A gente mistura os dois filmes. E a Giovanna faz a bruxa malvada, aquela que quer pegar a Dorothy, porque ela sempre se sai bem no papel de feiticeira do mau.
- Faço mesmo. Eu gosto de fazer a bruxa malvada. Assim você sempre sai correndo de medo de mim. Corre, corre, se esconde atrás da Raysa, vai!
- Ah, tia! Eu queria fazer o Harry Potter pra poder usar a capa e a varinha que você me deu.
- Belê, Raysa! É só você conseguir convencer a Vick e a Giovanna, porque o Rogerinho e o Yuri foram jogar bola na piscina.
- Então, Raysa, escuta... vamos misturar Harry Potter, Diário da Princesa e O Mágico de Oz. Não tem graça repetir tudo igualzinho aparece no livro.
- Tá bom. Eu amo o Mágico de Oz.
- Eu também.
- Eu também.
- A tia também. Mas por que vocês gostam tanto, tanto dessa história, hein? Quantas vezes vocês assistiram o DVD do Mágico de Oz nesses quatro dias?
- Ahahahahaha... Tia, a gente passou essa madrugada toda vendo de novo.
- The wizard of oz., oz, oz... oooooverrrrrrrrr the raiiiiinnnnbow... A Raysa fica querendo cantar as músicas em inglês, mas fala tudo errado.
- Não acredito, Vick. Mas se ela estiver errando, não faz mal, porque o curso de inglês dela começa na semana que vem.
- E o curso de balé também, tia. Olha, quer ver a gente fazer a cena do bosque, onde a Dorothy dança na estrada junto com o Espantalho, o Homem-de-Lata e o Leão Covarde?
- Lógico que quero. Mas vocês são apenas três. Vai ficar faltando um ator nessa cena.
- Faz com a gente, tia.
- Eu não. Daí a peça fica sem público pra aplaudir. Vou só assistir. Tive uma idéia: as três fazem a Dorothy, e pronto. Quero ver se vocês são capazes de dançar como ela, fingindo calçar um sapatinho mágico, na cor de um rubi encantado!
- Tia, o Monet pode fazer o papel do Totó?
- Será? Cadê o Monet? Acho que ele também está na piscina com o Yuri e o Rogerinho.
- Tia, por que o Monet tem esse nome? Ele podia se chamar Totó. Combinava mais também com a Titi.
- Totó é um nome muito fácil. E a Titi não se chama Titi. O nome dela é Tifany. Titi é apelido. Claude Monet é o nome do pintor que fez estes quadros aqui. A Tia Gi e o Tio Ra gostam muito dele, por isso demos esse nome ao Monet. E nós nos chamamos Gisele e Rafael, não é? Gi e Ra são apelidos. Sou Gisele porque minha mãe gostava da personagem de um filme com esse nome; e o tio Rafael foi uma inspiração bíblica.
- Foi o Monet quem pintou esses quadros, tia? Ele é francês?
- Estes são pôsteres dos quadros que ele pintou. Ele era francês, sim, mas de outro século; nasceu em 1840 e morreu em 1926.
- E a Rouge, qual é o apelido dela? Ela tem esse nome porque ela é uma setter vermelha?
- A Rouge não tem apelido. Mas ela gosta quando a gente fala o nome dela duas vezes em seguida, bem rapidinho, assim: "Rouge-rouge!" Igual vocês chamam a Giovanna: "Gigi, Gigi, corre aqui!"
- Tia, só que Princesa e Belle são nomes mais comuns...
- É verdade, os nomes são. Só que a Princesa não é comum, porque ela é filha de uma rainha, uma setter irlandesa vermelha, que se chama Rouge-rouge. E a Belle, além de lindamente diferente, faz a gente lembrar da Isabelle, que tem apenas dois aninhos, é a minha afilhada mais novinha e já está tão sapeca como vocês.
- A gente também chama a Giovanna só de Gi, tia.
- Eu sei. E eu também chamo o pai da Raysa de Gi.
- Tia Gi e tio Gi!!!
- Isso, Gi de Gino, igual o Gino dos comerciais da Fiat. Vocês já repararam que o cabelo do tio Gino é da cor dos pelos do ursinho desses comerciais?
- É verdade, tia! Ahahahahahaha... E Belle é o fim de Isabelle, mas se a gente colocar o Ra na frente vira Raysabelle, que começa igual ao tio Ra. Tia, foi você quem teve essas idéias?
- Claro que não, Raysa. Foi tudo coincidência. Difícil de acreditar, né? Mas foi. Ou, então, eu tive essas idéias, só que durante o sono, enquanto eu visitava, como a Dorothy e vocês, o maravilhoso mundo do Mágico de Oz.
- Nossa, que legal, tia! Tem mais nomes na nossa família que se combinam entre si?
- Tem, sim. Se vocês fizerem uma listinha, vão descobrir tudo. Uma das combinações mais fáceis imita a famosa risada do Papai-Noel: "hoho" ou "rôrô". Quem são?
- Tio Rogério e Rogerinho.
- Yes. O Rogerinho parece que já nasceu sabendo. Por isso, outro dia ele me perguntou: "Tia, baralho é palavrão?" Eu respondi: "Não, por quê?" E ele emendou: "Então, posso dizer baralho, em vez de caralho, né? Porque a Vick me disse que você não gosta de palavrão!"
- Ahahahahahahaha.....
- Tia, a gente vai fazer a listinha com os nomes de todos os tios e primas pra ver se eles combinam. Será que a gente vai lembrar de todos?
- Acho que sim. Ah! Mais uma coisa: não esqueçam também de combinar ao contrário?
- Como assim?
- Por exemplo: o tio Arnaldo - oi, tio Arnaldo! - é também um Ra, não é? Vocês lembram dele, não lembram? Ele nem sempre está pertinho, pertinho da gente, ao nosso lado, porque ele trabalha e viaja muito. Mas reparem que o próprio nome já diz que ele nunca se esquece de nós.
- Caraca, tia! É mesmo! Que legal! Na nossa família tá cheio de mantras, como você sempre diz. De A a Z. Será que o Mágico de Oz é um dos nossos tios ancestrais?
- Tenho certeza que sim. Como também tenho certeza que adoramos a Dorothy porque ela é uma das nossas primas ancestrais.
- Não acredito, tia.
- Acredita, sim. Eu sei que você acredita, Raysa. Mesmo sem ainda ter descoberto porque o Pequeno Príncipe se apaixonou pela Rosa naquele outro livro que você está com preguiça de ler, né?
- Ai, ai, ai... eu vou ler, tia. Juro!
- E aí, vocês vão ou não vão me mostrar se decoraram mesmo todos os passos de dança da Dorothy? Faz de conta que o Espantalho, o Homem-de-Lata e o Leão Covarde vêm dançando atrás de vocês. Mas não esqueçam de empinar esses sapatinhos vermelhos, bem alto, que é pra mágica da bruxa boa do Leste funcionar.

postado por: Gisele Centenaro 4:09 PM



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Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Infinitamente insatisfeitos

- Mas o que ela tem? São os problemas da TPM, outra vez?
- Não, não é nada disso. Trancou-se no quarto, não quer falar com ninguém e disse ao escravo que está traumatizada.
- Traumatizada?
- É. Traumatizada.
- O que ela quis dizer com isso? O que pode ter provocado esse trauma se ela não sai do Olimpo, aquele paraíso?
- Pois é. Ninguém até agora entendeu nada. Uma agressão emocional, diz ela. Mas não contou quem a agrediu, nem qual o grau do desencadeamento dessas perturbações psíquicas.
- Caraca! E olha que de desencadeamento essa mulher entende tudo, né?!
- E o que a gente vai fazer agora? É impossível vivermos sem os novelos dela. O consumo cresce cada vez mais no mercado interno, principalmente em Creta. Fora os novelos exportados semanalmente pelo Argo.
- Merda! O jeito é pedir pro Teseu dar uma subidinha até lá.
- Você tá maluco, cara? O Dionísio mata ele. E todo mundo sabe que a Ariadne odeia o Teseu. O sujeito levou o novelo e depois abandonou a mulher naquela ilha à deriva, lembra? Desse jeito, em vez de resolver o problema, vamos arrumar outra tragédia.
- Que nada! Você tá por fora da história. Esse lance é mito. Ano passado, a revista Máscaras flagrou a família toda na ilha de Creta, e o Teseu também estava lá, tomando um belo vinho com o Dionísio. Esse babado de abandono e traição foi tramóia para enrolar as milícias do Minotauro. A mulher é maliciosa. Aliás, reza a lenda que foi ela quem urdiu a existência da malícia. Dizem até que o tal Dionísio é apenas um protetor dissimulado, e que ela continua apaixonada pelo Teseu. Só pode ser, né? Você acha que uma mulher daquela ia levar a sério um cara como o Dionísio, que vive em celebração de seu culto orgiástico.
- Hãhãhãhã...! Agora entendi. Tem lógica. Mas onde você encontra tempo pra ficar lendo essa Máscaras, hein? Eu mal consigo ler as matérias da Olho por olho, dente por dente... Por falar nisso, você viu que o Titã, pai de Zeus, tava na capa da semana passada? O cara continua rei no meio da turma da geração divina.
- Claro que eu vi. Mas não boto fé, não. O tempo dele, pra mim, já era. Bom, e aí, você fala com o Teseu?
- Fui.
(...)
- Ariadne, meu amor! Estava louco de saudade.
- Teseu, não vem com esse papinho sete um, por favor, tá? Tá na cara que você só subiu pra chorar pelos novelos.
- Minha linda, é óbvio que eu vim falar com você sobre essa estúpida greve nas manufaturas dos novelos. Mas, como você sabe muito bem, estou me lixando pros ministérios das ciências econômicas. Meu negócio é guerra, querida! Ou seja, vim porque me pediram, porém, só vim porque assim poderia te ver. Nosso amor é imortal e infinito, esqueceu?
- Cara de pau. Suplício do inferno, posto que é chama imortal; porém, infinito somente enquanto durar. E, pra mim, esse suplício já está chegando no fim da minha infinitude, sabia? Desce, Teseu. Rala daqui, fora, se manda, cara. Meu, quantas vezes eu tenho de repetir? Vai, vai cuidar das suas guerrinhas, que das manufaturas de novelos cuido eu.
- Ô! Cuida, sim. A gente tá vendo. Vidinha de madame no Olimpo, bronzeado carioca, nau pra lá e pra cá pra visitar os quintos, filinha de pretendentes com diademas de ouro nas mãos, noitadas nos cultos do Dionísio... Fiar pra que, né? Os caras lá embaixo que se danem sem os novelos da senhora! Só que, daqui a pouco, além de faltar recursos pra fabricar minhas armas, por causa da queda nas exportações, nenhum marechal, nenhum capitão grego, nenhum arqueiro heróico vai conseguir voltar são e salvo pra casa. Enquanto isso, a Madame Ariadne se deleita e, ainda por cima, espalha o boato da traumatização sem contar quem foram os agentes de tamanho sofrimento! Dissimulada. Se você não quer parar essa greve dos novelos, tudo bem, mas eu exijo saber que trama é essa que você está enredando sobre o tal "trauma gravíssimo".
- Você não tem esse direito, Teseu. Eu até gostaria de te contar. Mas, quem não te conhece que te compre. Abro minha boca e semana que vem tá tudo na Máscaras, em pinturas legendadas. Antes, é claro, você saca o punhal, mata uns quatro e, depois, se deleita, como sempre, narrando os sórdidos detalhes para os colunistas. Esqueça. A greve continua, infinitamente, enquanto eu achar conveniente que ela dure.
- Ariadne, meu punhal tem mil e uma utilidades. Quer que eu te mostre, agora, se ele continua infinitamente afiado?
- Querido, por favor, não se exalte. Juro que eu sei o que estou fazendo, e não é conversa de madame, não, meu lindo guerreiro. Me dê um beijo! (...) Agora, escute, não posso fornecer novelos neste momento, e pronto. Além disso, sei que os estoques daquele bando de mercenários ainda estão cheios, embora o preço do novelo não pare de subir. Já ouvi falar até em mercado negro.
- Afinal, você está ou não traumatizada, manhosa? Sendo mais objetivo: a quem devo a honra de receber a visita do meu punhal?
- Ninguém merece mais a honra de ser visitada pelo seu punhal do que eu mesma. Ahahahaha... Satisfeito? Cá estou, de peito aberto, infinitamente. Apunhale, vamos!
- Sua louca. Bem que eu queria, mas minhas mãos tremem. Pode deixar, que eu vou descobrir essa história toda, sozinho mesmo. Aí, ó, você me deixou furioso, de novo. Prepare-se para não me ver por um bom tempo.
- Ah! Nada melhor do que uma dorzinha de saudade para revigorar as chamas, principalmente as imortais. Vai, querido, eu te espero, mas desta vez sem fiar nada.
- Sua...
- Olha! Me respeite, senão eu chamo o Dionísio, que, aliás, anda nas nuvens com a boa sorte dos negócios. Você sabia que a safra produzida para as classes mais baixas inebriou Creta? Vinho barato, porém, divino. Ninguém tem resistido.
- Essa nau pronta para zarpar vai levá-lo para as terras baixas?
- A nau de velames lilás e rosa?
- Essa mesma.
- Não, meu amor. Essa nau vai levantar âncoras por mim. Parto amanhã para o Rio de Janeiro. Já é Carnaval no Brasil, outra vez. Os sambas-enredos me esperam, enquanto vocês esperam pelos novelos de fio. O Rio é logo ali. Na volta, eu retomo a pauta sobre a greve dos novelos, num estado de espírito, digamos, mais bem-humorado.
- Carnaval no Rio? NEM MORTA. Chama o Dionísio, que agora eu quero falar com ele pessoalmente. E você, boquinha calada.
- O Dionísio foi pra Salvador, homem cruel.
- Só podia. Folgado. Leviano. Imprudente. Insensato. E mais uma vez sobra pra mim salvar a dignidade desse Olimpo contaminado pelos terráqueos. DESGRAÇA!!!!! Chama as tuas vestais imediatamente. Acabou o papo. É com os teus fios que as fantasias desse carnaval vão pra avenida, enquanto você, minha querida, passa a sambar infinitamente conforme a minha música, aqui no paraíso, com ou sem trauma.
- Seu desumano. BRUTO.
- Sou desumano, não posso nem quero negar. É a minha realidade. Brutus, porém, ainda não nasceu, embora já seja meu amigo. Mas vai ser um enorme prazer apresentá-lo a você assim que os músculos dele atingirem a maioridade, minha deusa. Enquanto isso, infinitamente ao trabalho. Só saiu daqui quando a primeira leva de novelos estiver pronta. E pra te mostrar que, mesmo sendo desumano, tenho um coração, eu seguro na ponta do fio enquanto você enrola o primeiro novelo.
- Que meda! Pega o cesto ali, atrás do divã.

postado por: Gisele Centenaro 7:53 PM



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Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006

Revirando o inferno

13º.

O cheiro de enxofre abafa o perfume das rosas. O sol arde. Não há mais poças d´água. Na gruta, um pé de porco vira esqueleto na entrada. Alguns passos adiante, a escuridão. Mais um pouco, e a lama sobe até as coxas. Meia-volta. A cabeça do porco se afoga entre espinhos. O sol arde ainda mais. O elemento de número atômico 16, não metálico, cristalino, amarelo, entope a vida.

15º.

O horror conecta-se ao cérebro. A pele seca. O sol não se põe. Não há mais poças de nuvens. No buraco, um rato esganiça. Passa-se por ele, mas os gases impedem a descida. Meia-volta. O rato se mata entre os espinhos. O sol ri. Mercúrio envenena o solo. Eram 88 dias. Agora é a eternidade do macabro.

17º.

As sombras tétricas inebriam. A mente entrega-se, fixamente, às visões de cenas dolorosas. Não há mais poças de sangue. Na várzea sem cachorro, galhos apodrecem. Passa-se por eles, mas os chifres escorneiam os sentimentos. Meia-volta. O cão virou pó. Amom sorri. Fobos e Deimos insurgem-se 107 vezes. O vermelho agora é negro.

18º.

Um sujeito (in)determinado sonha que reza. Uma pomba gira. Uma maça, hoje putrefata, ontem foi pervertida. Não há mais poças de saber. Na locanda, lázaros choram. Passa-se por eles, mas a lepra lesa os nervos. Meia-volta. O imprestável propaga o vício da amoralidade. Vênus rouba a Lua. Eram 225 dias. Agora o luto principia.

19º.

Ninguém mais sonha. A Terra se abre. O mar vira sertão. Não há mais poças de esperança. No céu, os reis descansam. Passa-se por eles, mas a desonra enfeza, acanha, oprime, vexa, tolhe. Meia-volta. Um Humilde Humilhado recorda vivificado. Foi o elemento de número atômico 92, metálico, branco, denso, radioativo, fissionável, que acordou os gênios.

20º.

O Humilde Humilhado renasce na geração do Verbo ativo. Os Verbos auxiliares abafam o enxofre para semear rosas; transformam o veneno de Mercúrio em fonte de cura e seiva; apaziguam os demônios de Marte com seus rubis; derramam mel sobre a lua para cultivar a paixão de Vênus; lavam as feridas dos mortos para ressuscitar dois em Unu. O mundo se encanta. A Terra se maravilha. Um homem e uma mulher se enlaçam. O gozo se expressa.

21º.

Pecado é não dar a volta inteira para delatar, versejando, onde, como e quando o orgasmo do Cosmo principia. Quando um rei manda, príncipes e princesas obedecem propagando o amor como vício de linguagem.

postado por: Gisele Centenaro 8:13 PM



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Terça-feira, Janeiro 31, 2006

Tu tens, ele tem, nós não temos

- Cirilo, ocê vai perder a hora.
- Vou, vou sim... Que hora eu vou perder, sua mulher tonta, se eu não tenho mais hora pra perder.
- Ah é! Vai vadiar agora?
- Pois ocê qué que eu faça o quê, fora da cama, sem emprego.
- Cristo, dá no pé dessa cama, homem. Reage. Olha pros ponteiro, olha.
- Também não dá. Os ponteiros foram junto com o relógio que me roubaram semana passada. Esqueceu? Vem cá, vem.
- Levanta ou leva água fria na cara. O da cabeceira tá funcionando. E combinamos sigilo pra não afetar o psicológico das crianças, lembra?
- Sei, sei, sei, já levantei. Pronto. Mas eu não tô achando que essa sua idéia vai funcionar. Você sabe que não levo jeito de político pra ficar com essa história de sigilo pra lá e pra cá. Eu achava melhor contar logo a verdade pra eles.
- Homem, é a terceira vez que você perde o emprego este ano. O de seis ainda não entende direito e dá pra enrolar. Mas o de nove fica doente, você sabe. O menino já se preocupa com a vida. Começa a não dormir direito, volta a ter aquelas dores de estômago, falta na escola, vem de novo com aquele papo de malabarismo em farol... Aí minhas dores de cabeça aumentam. Pelo menos nisso, ôce pode ajudar. Faz sigilo, e pronto.
- Faz sigilo... Chata. Quando você vai perder essa mania de ficar usando essas palavras difíceis que escuta na TV, hein? Fala logo fingido. O que você quer é que eu finja que tenho emprego, dinheiro no banco, tíquete pra comida... Daqui a pouco, você vai querer até que eu finja que tenho dólares, contas no exterior, amigo deputado, corpo fechado por pai de santo, convites pra ver os tais dos Rolim Estones, dos Utchus, convites pra assistir escolas nos camarotes das brahmas e depois dormir no Copa...
- ... cabana.
- É, no Copacabana!!!
- Já vai começar? Por que toda vez que eu te peço alguma coisa você desembucha essa listinha que começa com dinheiro no banco e termina no Copacabana, hein? Tô achando que seu sonho era ser playboy. Então, casou por quê? Por que casou? Eu não quero que meus filhos fiquem traumatizados por causa dos problemas dos pais, como eu vi outro dia no Globo Repórter. Também não quero meu filho fora da escola, tentando ganhar uns trocos em farol pra ajudar a família. É só isso. Que custa fazer sigilo? E já que você falou no Copa, fingindo que esquece que a gente mora nessa linda cabana, dá uma passadinha lá pra falar com o tio Nilzo. Tem de insistir e marcar em cima. Ele não te disse que de uma hora pra outra podia aparecer aquela vaga na cozinha? Ele não vai vir te buscar aqui em casa de helicóptero pra você arrumar trabalho. Vida de playboy, meu filho, é só no sonho mesmo. Vai, se mexe, se mexe logo e desencanta da minha frente, que eu quero esticar os lençóis antes de sair.
- Eu não vou perder meu tempo indo até lá no Copa. O tio Nilzo fala, fala, diz que conhece todo mundo lá, e nunca me arruma nada. Mais tarde ligo pra Tia Mariquinha e deixo recado. Hoje vou dar um pulo lá no Porcão. O Das Dores falou que era pra eu passar na terça. Me arruma 10 reais.
- 10 reais? Cirilo, não me ponha nervosa. Amanhã tenho de pagar o aluguel. Vou te dar só o da condução.
- Ué, os 10 são pra condução! De lá, passo no bar do Glória.
- Ah! Quem não sabia? E volta pra casa com a cara cheia outra vez.
- Eu não vou lá jogar biriba, nem tomar cana, mulher. Vou pedir emprego de novo.
- Tô sabendo, Cirilo. As pingas, como sempre, em sigilo e a falta de emprego, em público. Toma vergonha na cara, homem, e suma da minha frente.
- Eu tenho vergonha na cara pra dar e vender. Pena que ninguém anda querendo comprar, nem no farol, senão meu bolso tava cheio. E aí eu comprava um helicóptero pra te levar ver os Estones do alto.
- Não vai levar os 10 nem assim. Mixou o papo. Olha os ponteiros girando.
- Deixa girar, deixa girar. Vem cá, vem. Pra vadiar junto contigo eu não perco a hora.
- Tira a mão daí, Cirilo. Tira, tira...
- Tarde demais... Sabia que uma das coisas que eu mais gosto na vida é te ajudar a esticar os lençóis... em sigilo, meu amor!!! Sigilo, sigilo, sigilo!!!

postado por: Gisele Centenaro 5:00 PM



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Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Sai de cima que a gente se vira

- Gente, pelo amor de Deus, assim não dá. Ninguém nunca disse a vocês que pra pensar é preciso silêncio?
- Você tá mandando a gente calar a boca, é?
- No bom sentido, estou sim. Por quê? Você acha que estou errado?
- No bom sentido, não. Mas no mau sentido, isso é coisa de SS, despótico, tirano, opressor. Você acha que estou errada?
- No bom sentido, não. Mas no mau sentido, se todo mundo continuar falando ao mesmo tempo, eu fico louco, ela fica louca, nós ficamos loucos, essa reunião não vai acabar nunca, não vamos encontrar solução alguma pra problema algum, vamos brigar um com os outros e, ainda por cima, segunda vamos ter de começar tudo de novo, com o humor piorado ao quadrado.
- Que legal! E como é que a gente vai chegar numa idéia que preste se ficarmos todos em silêncio como você propõe, estilo um time zen em meditação? Mané, acorda! No princípio, era o Verbo, lembra?
- Lembro, lembro sim. Só que Deus falava consigo mesmo, sua zebra. Falar, tudo bem. Mas que tal um por vez e, de preferência, depois de pensar um pouquinho? A coisinha ali, por exemplo, não pára de falar... sobre ameixas, maças, pêras, mamão, melão, salmão. O regime dela é uma verdadeira salada de frutas, enquanto o abacaxi continua aqui na mesa pra gente descascar e, finalmente, poder ir jantar. Eu já estou morrendo de fome, sabia?
- Co-i-si-nha??? Com quem você pensa que tá falando, hein, figura? Quer a receita do regime, eu te dou. Já se olhou no espelho? Bem que você tá precisando curtir uns abacaxis e dar uma malhada, sabia? Sai fora, moleque. Chegou outro dia e já está se achando. Fala grosso, fala, e mostra o quanto o seu cérebro é fino.
- Cara, que menina azeda! Tudo bem, me desculpe pelo "co-i-si-nha". Pô, mas eu tô cansado. E não consigo pensar direito com esse falatório à toa.
- Tá, tá, tá. Eu também peço desculpas. Mas tenho uma sugestão. Vamos rever tudo com calma. A gente podia se dividir pra dar uma estudada legal nessa porcariada toda, individualmente. Eu me comprometo a fazer isso neste fim de semana. Tenho certeza que se a gente der uma revisada em tudo, pra checar ponto por ponto, desde o começo, as idéias vão fluir melhor. Na segunda, a gente senta junto, novamente, pra fechar numa solução superembasada, mais alinhavada com todo o histórico dessa tralha.
- Meu... Cara...! São mais de 20 anos de história. Aí, isso vai dar um puta trabalhão, cara. Como é que a gente vai dividir esse lance? Uma coisa tá hyperlinkada com a outra. E, pra falar a verdade, não acho que preciso fazer essa revisão, porque sempre mergulhei de cabeça nesse troço todo. Sei de cor cada vírgula dos bons e dos maus momentos.
- Ah! Mas eu ainda tô me achando meio por fora. Sorte a tua, ter essa supermemória. Mesmo assim, veja só: de repente, você pensa que sacou lance por lance, que conhece todos os detalhes, porém, justamente por ter estado tão envolvido, deixou escapar algo importante... viu sem ver, entende? Acontece. Assim como também acontece de alguém não ver vendo.
- Pode até ser. Mas pra livrar a cara do meu fim de semana, eu me garanto te respondendo qualquer pergunta que você queira me fazer agora. Ou seja, se vocês quiserem dividir a lição de casa, tudo bem, mas eu tô fora dessa.
- Engraçadinho. Mas até pra te fazer perguntas eu preciso de mais informações, sacou? E te garanto que enxergo muito melhor que você desde sempre. Portanto, você pode até ficar de fora, mas quero ver a tua cara na segunda se eu perguntar algo que você não saiba responder.
- Eu me garanto, já disse.
- E aí, pessoal, ninguém diz mais nada! Vamos ou não nos dividir pra rever geral?
- Eu topo
- Eu também.
- Valeu. Fui. Tô levando comigo as pragas dos sete anões, que eu também já sei de cor. É trabalho pra três, mas me viro sozinho. O que sobrou aí é moleza. Fui mesmo, galera. Até segunda.
- Ufa! Menos um. E aí, moçada, vamos dividir?
- Vamos nessa. Se deu maioria, vamos acabar logo com isso, faça sol ou chuva no findi.
- Bom, como eu disse, eu passo. Tô indo nessa.
- Legal, mas segunda você se vê comigo, cara.
- Vou repetir: eu me garanto.
- Então, tchau, superego.
(...)
- Não foi? Tá aí ainda, mané? Se manda, cara. Passe livre.
- Esqueci meu celula.
- Já que você voltou, diz pra gente por que até hoje não viramos aquelas páginas sobre a colegiatura que deu origem a essa mixórdia. No meio dessa confusão, nem sei se tá todo material aqui na mesa. Não consigo encontrar os CDs sobre os legatários. Algum colega aí sabe onde colocou?
- Pois é. No princípio, era o Verbo...
- Ai, meu saco. Pensando bem, eu me garanto, mas acho melhor ficar pra dar uma força pra vocês, né? Abre esse trem aí, vai, que eu te digo o que tá faltando e por quem os sinos dobram.
- Pronto, já abri.
- Beleza! Mas agora joga pra cá essa meleca e sai de cima, coisinha linda, que eu te mostro o que fazer pra esse abacaxi virar suco.

postado por: Gisele Centenaro 9:58 PM



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Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Reis, Vale dos Risos

Vista-me, vivo.
Olhe-me, vives.
Protegei-me, oro.
São Reis, cubram meu rosto.
Enxergo-os sob o véu.
Reconfortem-se no meu sorriso,
Porque me apóio em seus ombros.

Eles vêm do Vale, onde não há mais lágrimas.
Eles vêm do Vale, onde não há mais ritos.
Eles vêm do Vale, onde o Sol não se põe.
Eles vêm do Vale, onde o Infinito principia.

Acordados, sopram o espírito do louvor.
Pois louvados sejam os seus tesouros.
Tesouros da arca do Deus Cosmonauta.
O Deus que fala através das flautas em flor.

Vigiam seus filhos através dos tempos.
Amam gratos e ingratos na mesma medida.
Mas não permitem adentrar pelo templo
A vergonha dos sem vergonha na cara.
Ao injusto, o quinhão da sua injustiça.
Ao incauto, fado e prejuízo pela sua insensibilidade.

Reis que valem pelo peso do Ouro em seus corações.
Vale dos Reis que choraram em vida, e hoje riem.
Reis que valem pela abdicação de seus reinados.
Vale dos Reis que sublimaram em morte, e hoje vivem.

Vista-me, Rei dos Reis.
Olhe-me, vivo em Ti.
Protegei-me, coro.
És Rei dos Reis sem carne nem osso.
Teus Reis cobrem meu rosto
Porque me apóio em teus pés etéreos.
Porque tua beleza me desfigura.
Porque ardo ao suplicar pela paz.

Vista-me, Rei dos Reis.
Pois sei. Sou mendiga em face da fúria.
Servilmente pleiteio.
Vista-nos, Rei dos Reis.
Pois sei. Somos fados em face da Ira.
Disseram-me não, perdão.
Mas servilmente ainda pleiteio.
Pedindo eu perdão pela minha oração.
Pois sei. A cólera do Vale é do Grande Leão do Leste.
Vista-nos, Rei dos Reis.
Servilmente pleiteio.
Implorando, rogando, chorando.
Pois sei. Sabes.
Não temo, porém, como tola, amo.
Apazigua tuas feras e tuas esfinges.
Pois sei. Sabes.
Não suportaremos a dor do cálice.

postado por: Gisele Centenaro 4:39 PM



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Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

Cézar, saladas de entrada e mamão de sobremesa

- E o prato principal? Será que a madame vai querer que eu faça pato, outra vez, ou vamos atacar de cordeiro, quem sabe um carneiro e, por que não, uma galinha ao molho pardo?
- Cadê ela?
- Foi pro salão.
- E só deixou esse bilhete?
- Só.
- É, o texto tá bem informativo... Finalmente, ela decorou meu nome. E deve estar de bom humor, hoje. Olha só: nenhuma expressão engraçadinha, daquelas que ela gosta de usar pra cutucar a gente quando acorda irritada. O clima tá melhorando, pra falar a verdade. Já tem uma semana que ela não ralha comigo. Também, não dei motivo, né? A casa tá um brinco. Nem a água dos vasos eu esqueci de trocar ao raiar do dia.
- Em compensação, você não pára de falar como uma grelha!
- Ah, é? Era o que me faltava, ouvir isso de você, logo de você. Fala anjinha, o que mais eu fiz de errado esta semana? E não é grelha, sua tonta. É gralha.
- Não me amola. Quem está de mau humor, hoje, sou eu. Caí da cama às 7 da manhã.
- Não fez mais do que sua obrigação. Tá pensando o quê? Que a madame te paga pra você dormir até às 9? Já limpou as cadeiras da piscina? Por falar nisso, quando o jardineiro volta das férias, hein?
- Sei lá. O xodozinho da patroa saiu de férias cheio de grana no bolso. O sujeito é safo. Vive com os cachorrinhos dela no colo. É Titi pra cá, Titi pra lá. "Toma um biscoitinho, Monet." Na frente dela e do patrão, é lógico. Nunca pensei que puxar saco de cachorro também dava moral. Eu já limpei as cadeiras. E tava dizendo que caí da cama, mané. Caí de verdade.
- Como assim? Caiu da cama? Que é isso, mulher, sonhou com alguma assombração? Não me faça rir. Sabia que eu não acredito em metade das histórias que você me conta?
- Ah, é? Pois fique sabendo, seu Cézar, que eu não sou mulher de contar lorota.
- É por isso que eu acredito numa metade. Porque sei que a outra metade são gabolices que contam pra você, e você mexerica pra mim. Menina, deixa de azedume comigo. Caiu da cama por quê?
- Primeiro, porque a cama é estreita, você sabe. Até hoje a madame não me comprou uma de adulto, como a tua. Continuo dormindo naquela que era do Ricardinho. Mas o motivo mesmo foi aquele pesadelo que tenho desde menina. Sonhei de novo que um avião estava caindo em cima da casa.
- Cê tá brincando! Começou tudo de novo? Você tem tomado um chazinho com mel, antes de dormir, como eu te ensinei?
- Ontem, eu não tomei. Tava muito calor pra tomar chá. E acho que esse negócio de chá é bobeira tua. Se eu tivesse grana, juro que eu encarava um analista pra me livrar desses pesadelos.
- Você tá precisando se distrair mais. Esses pesadelos são provocações do teu inconsciente, que anda muito estressado e você nem se dá conta. Aposto que você leu jornal ou assistiu o noticiário na TV, ontem à noite, antes de pegar no sono. Dá nisso. Fica lendo e ouvindo o blábláblá desses políticos; as manchetes sobre a gorjeta, chamada por eles de aumento, que vai vir com o salário mínimo em maio; fica decorando os números das contas no exterior de marketeiros, os tais bandidos que se dizem protegidos por orixás; fica acompanhando as altas e baixas das bolsas, embora a tua só passeie a tiracolo no Brás... Já te disse que esses papos piram a gente. Se você não quer tomar um chazinho porque tá calor, pelo menos desliga os neurônios contando estrelas no céu, conversando um pouquinho com a lua, catando no cérebro palavras bonitas pra dizer pra mim...
- Isso, abre-te, Cézar! Começa com discurso de sabichão e sempre acaba em cantada barata. Ora, agora direis ouvir estrelas... Tá aí: "estreita" é uma palavra bonita pra você? Como eu dizia, minha cama é "estreita", só dá pra mim.
- Gostei mais da expressão "só dá pra mim".
- Seu grosseiro. Vai pensar no prato principal do seu jantar, vai. Quer saber? Hoje não vou cortar cebola, nem amassar o alho, nem descascar batata pra você. Vire-se!
- Ah, meu anjinho. Não fica brava, não. Mamão vai virar salada, e salada vai virar mamão, se você não me ajudar, e eles ainda vão ficar sem o assado.
- Azar, o teu e o deles. Mas eu acabo de ter uma idéia: já que você tem o dom de falar com as estrelinhas, manda recado pra Feiticeira. Quem sabe ela resolve fazer uma boa ação, picando pepino pra você com o narizinho. Só toma cuidado com a vassoura, porque periga de cair piaçaba nas tuas panelas se ela sobrevoar a cozinha.
- Sua bruxa malvada.
- Sou bruxa, mas sou feliz. Mais bruxo é quem me diz. Ah! Já ia me esquecendo: o mamão tá verde, a endívia acabou e a lactuca sativa tá queimada. Acho que você vai ter de dar um pulinho no supermercado.

postado por: Gisele Centenaro 4:47 PM



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Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

O melhor dos meus planos!

Agora, vai. Tá aí o melhor candidato que a gente poderia ter pedido pro Papai Noel, pra não faltar fuxico neste verão. Agustinho, você é tudo de bom no universo da numerologia! Caiu de banda, chegou de bonde, mas se conseguir levar todo mundo no bico é capaz de sair com um milhão, além do novo carrão.
Não deixa cair o sa-bo-ne-te, Agustinho. Nem mergulha de cabeça na piscina, que é pra não correr o risco de virar peixe fora d'água antes da hora. Capricha ao contar de zero a dez. Não perca o rebolado. E cuidado para não cometer o pior dos enganos: esquecer que, lá dentro, pra fazer bonito aos olhos do Big Boss, todo mundo tem um plano.
Nesta grande família, acontece de tudo, estejam altos ou baixos os juros: amores à prima vista. santos e contas que não batem jamais, carmas e pagamentos a perder de vista, rumba, bolero, samba, rock and roll; na praia, nas ruas, nas casas, nos big shows. É a cara do Brasil, que, graças a Deus, não faliu nem nos tempos do império, nem sob as ditaduras das falcatruas.
Agustinho, parece que tu caistes do céu. Vai saber. Pode até ser. Afinal, enquanto o céu não cai sobre o crânio de ninguém, podemos olhar pra cima e imaginar o que há para lá do além, onde dizem que os anjos cantam amém. O mais complicado - e mais simples, pra mim - é pensar com o coração, mas sentir com o intelecto. Que estilo, brother fofinho! É só sonhar pra dizer sim, é real, e quem não estava aqui e agora passa a estar - eis uma hipotética resposta para a pergunta que não quer calar: ser ou não ser? Mas pra que se preocupar, se viemos a este planeta só para amar?
Acabou o amor, acabou o mundo. Destino, fado, sina, casualidades, jogos de azar. Lança-se à sorte, diante de Cloto, Láquesis e Átropos, mitologicamente desejando que a boa estrela seja nossa companheira. Um faraó: um título de soberano ou um antigo jogo de azar? Um corpo de leão, alado ou não: uma esfinge ou uma fera? Vai saber!!!!!!!!!
O melhor dos planos, Agustinho, se não me engano, é transformar o enigma na convicção que lhe convém, por pior que sejam os desígnios das deusas, pois se a fortuna não nos acompanha talvez seja apenas porque não a contemplamos com a visão que a crença nos dá. Sabe-se lá, sabe-se lá... quem vem do outro lado pra nos escoltar.
Agora, vai. E tomara que a gente não pire o Agustinho, esperando que ele também faça o favor de não pirar a gente, porque se essa sorte continuar poderemos, no fim do jogo, emprestá-lo pro Alckmim, pro Lula ou pro Serra, logo após as eleições, que é pra evitar que eles cometam, novamente, o pior dos enganos: esquecer que, por aí, pra fazer bonito aos olhos de alguém, todo mundo tem um plano. Cada um com seu número pi, cada faraó... com sua pirâmide. Que meda!

postado por: Gisele Centenaro 11:04 PM



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Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

Ione, toma que a geladeira é tua!

Agora que sou guerrilheira, adeus forno, fogão e geladeira! Até que enfim, um pouco de aventura em minha vida. Viva eu viva! "Sejamos guerrilheiros", sugere o DaMatta. Nossa, como foi quem eu mesma não pensei nisso antes? Eu me matando de entender como funciona o aspirador, tentando distinguir o efeito do alecrim e do gergelim nos temperos, atrapalhada com a louça ensaboada, suando de medo da cândida... Que loira burra, sô! Tudo porque eu não sabia que é mais fácil ser guerrilheira do que dona-de-casa. Mais do que isso: pra ser guerrilheira, os companheiros não exigem prática, e por excesso de concentração ou, simplesmente, distração, nem percebi que eu já tinha sido aceita nas frentes urbanas, carregando como arma apenas amor e doses excessivas de esperança.
Estou me achando, sinceramente e modéstia à parte. Minha primeira missão, conforme me dei conta somente após o retorno para São Paulo, foi ser protagonista de um sequestro relâmpago na joça de um aparelho pra lá de sexagenário, que os franceses, sempre muito polidos, preferem chamar de elevador. Mas em Paris, um luxo! E nem deu pra sentir falta de ar, presa na caixa quadradinha que nos sequestrou com sua falha mecânica e não mais do que 90 X 90 centímetros de área contruída, embora eu tenha ficado nela, quase sem me mexer, de frente para o meu maridão e segurando as sacolas do supermercado, por mais de uma hora, sem dar nem pra sentar no chão.
Tá certo, eu menti ao informar pro povo que falava comigo por aquele botãozinho no painel que não estava mais conseguindo respirar, que eu ia congelar por causa do zero grau e, Deus me perdoe, que eu estava grávida. Sabe como é, né? Nessas horas, vale tudo, e valeu a pena as mentirinhas, porque elas me valeram um superestímulo vindo da providencial caixinha de som: "Courage, madame, courage!" Mais o fato de que meu marido decidiu acelerar o regime.
Happy end: o elevador não despencou, fomos resgatados, aplicamos a experiência para resgatar, dias depois, outros três desavisados (tasquei um "courage" neles também) e, graças ao trauma, tive um sonho iluminador no avião, durante a viagem de volta, ao ver, em pensamento, um cego num divã. Insight: foi Deus quem me salvou! Como não pensei nisso assim que saí de lá? É lógico: pois se eu estava no 6o. parisiense, no edifício 6, no sexto andar e no apto 60, depois de ter sido atendida pelo garçom número 6 do Lipp, quem mais poderia ter me salvo? Deus, é claro, que assumiu o controle da situação através de um zeloso zelador que passava por ali bem naquele momento.
Ser guerrilheira é moleza, e bem mais emocionante do que pilotar fogão. Adorei! Entretanto, como sou café com leite, ainda não saquei quem são meus companheiros e quem são os inimigos, ou seja, de que lado estou? Cadê o manual explicando quais são as causas que, daqui por diante, devo defender? Desculpe aí, Deus, mas eu sou meio loira, né? Além disso, essa coisa de esquerda, direita, centrão, política anda meio confusa no Brasil, enquanto eu ando mais confusa e por fora que o cara que fixou residência na Terceira Mangueira, em frente do Congresso Nacional. Tanto que nem gosto de declarar meu voto por receio de influenciar alguém ao tecer comentários asininos. Confesso, porém, que tenho uma certa simpatia pelo Alckmin, sem querer me comprometer desmerecendo qualquer outro candidato, porque, obviamente, sei que todos estão imbuídos das melhores intenções, portanto, antes de afirmar "voto nesse aí", acho melhor aguardar as campanhas que serão veiculadas nas mídias, principalmente a distribuição de santinhos.
Em comemoração à minha nova vida, comprei uma geladeira de rico, supergrã-fina, modelo Frost Free, sem comparação, inclusive no preço, porém, com minhas recém-habilidades adquiridas, foi bico convencer a moçadinha da Fast a parcelar em 10 vezes, não em 3 como anunciado. Só que, nem bem a bonitona foi instalada na cozinha, virei pra Ione, a governadora aqui de casa, e entreguei: "Toma, que a geladeira é tua!". Nem precisava, porque ela está apaixonada pela geladeira; louca pra me ver de volta ao trabalho, bem longe do fogão também dela; e encantada com minha nova profissão de guerrilheira light, embora um pouco assustada - eu notei -, porque, segundo a rápida, contudo minuciosa, observação que ela fez do aparelho, logo a Ione percebeu que a Brastemptona soa um alarme quando a porta é aberta.
- Chi!... Dona Gisele, quando a gente acordar de noite pra dar uma visitada nos queijinhos franceses do Seu Rafael, essa geladeira vai apitar. Será que eles fizeram isso pras empregadas num pegarem comida das geladeiras dos patrões?
- Claro que não, Dona Ione. É só pra a senhora não esquecer a porta aberta. Olha só: fechou, o alarme já era. E a gente vai poder continuar apreciando esses queijinhos com toda segurança! Mas, toma, que a geladeira é tua, porque a partir da semana que vem volto a dar expediente no Portal da Propaganda.
- Ah! Que bom, Dona Gisele.
Como sapecava meu avô italiano Modesto, também de personalidade, "Joãozinho entrou por uma porta e saiu por outra; quem conta um conto aumenta um ponto; esta história acabou, porque o vovô cansou; quem conhece outra história que conte outra". Nada de apagar a luz, porém, antes da confissão: "Deus, foi mau ter dito aquelas asneiras que eu disse dentro e fora do elevador. Um dia ainda aprendo a ficar de boca calada, mesmo nas horas de aflição. Até lá, a gente podia fazer uma combinação. Deixa que eu me viro. Afinal, o Senhor tem coisas mais importantes pra fazer e gente mais valiosa pra cuidar. Eu menti, mas não apelei, lembra?, sem querer ser mal-agradecida, muito pelo contrário, e deveras penhorada por ter merecido sua atenção. Eu me viro sozinha, juro, pois sou uma de suas guerrilheiras mais fiéis - apesar de que estou em pleno processo de análise freudiana, o que me torna meio vulnerável, acho. Nem precisa ficar preocupado, mas se ficar, mais encantada eu ficaria se, em vez de usar intermediários, como o diligente zelador, o Senhor entrasse diretamente em contato comigo, de preferência na língua portuguesa, pra que eu possa lhe provar que, desde os tempos do Egito antigo, confio nos bons companheiros, seus inclusive, que estão sempre ao meu lado. Foi com eles que aprendi a usar os poderes do Aum e o pior que pode acontecer - paradoxalmente considerado por nós o melhor, o Senhor sabe - é eu fazer uso, na hora do desespero, da palavra "perdida" para abrir o portal da transição. Sei que o Senhor não vai gostar muito, que assim seja, mas quem sai na neve é pra se gelar. E cá entre nós, tá o maior sol no meu quintal. Muito obrigada!"

postado por: Gisele Centenaro 6:53 PM



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Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

Toma, que a alma é tua

- Ai, meu Deus, não sei o que faço! Que agonia. Quase véspera de Natal. E agora, meu Deus? Melhor não pensar mais nisso. Vou colocar o pernil no forno.
(...)
- Tão grande, esse pernil, e tanta gente ainda passando fome no meu Brasil, meu Deus! Pensei que isso findava este ano. Não, não é verdade... não pensei bem assim, mas pensei que o problema de fome ia deixar de ser tão grande. "Um grande amor é pra vida inteira." A minha vizinha adora o Roberto Carlos. Aliás, as duas vizinhas - tanto a da direita como a da esquerda - adoram o Roberto Carlos. Eu também gosto. Vou comprar o CD novo. Então... sobre a fome: pensei que ela ia quase acabar, porque eu sei, é claro, que sempre haverá alguém precisando de alguma coisa em algum lugar, por aí. Coisas da lei de causa e efeito, regida por Deus. Aliás, ainda bem que pelo menos essa lei é regida por Deus, porque as regidas pelos homens... Quase véspera de Natal. "Histórias pra contar pra mim." Viva o rei!
(...)
- E por que eu tenho que ficar pensando em fome bem na véspera de Natal, quando minha obrigação é fazer com amor esta ceia pra minha família? Só faltava, agora, eu ficar lacrimejando em cima do meu pernil, que ia acabar salgado e, por descuido, também queimado. Bom, fazer o que, né?! Só porque é Natal, eu não... Preciso abaixar o forno, que já deve estar quente. "Aí é que você se engana. Quando a gente ama o coração se aquece. E por amor se faz de tudo."
(...)
- Pronto, lá se vão, agora, horas e horas de forno. Bom, fazer o que, né?! Só porque é Natal, eu não vou ficar pensando apenas no forno, no pernil, na ceia, afinal, praticamente, nem sei ser dona-de-casa, muito menos do tipo alienada. É natural, portanto, que eu reflita sobre a fome no meu País, no planeta, na casa da empregada da minha vizinha... O que não posso é ficar chorando, nem sobre o leite derramado, nem sobre o meu pernil, porque o fato de faltar comida no Brasil não é uma questão de choradeira, nem de infertilidade, nem é motivo que justifique a maldade de eu servir uma ceia salgada, queimada e, ainda por cima, não abençoada, pra não dizer maldita. Acho que o fato de faltar comina no Brasil, apesar de eu ter o meu pernil pra assar, é conseqüência de atitudes de gente muito vil. Será? "Ela também vive pensando em mim. O sol da minha vida é ela. Eu não pensei que alguém pudesse amar assim." Vou arrastar essa cadeira lá pro jardim, de onde dá pra eu vigiar esse forno pelo cheiro. Que calor! Quase véspera de Natal, meu Deus!
(...)
- Conversar comigo mesmo, meu Deus, meu Rei, meu rei, é este o jeito que encontro pra tentar achar o fio desta meada. Ou será que sou eu mesma quem está enrolando esta meada, sem deixar que se veja a ponta do fio? Vai passando o tempo, assim, igual eles cantam aí, nessa música... Que engraçado, né?!! Ele fala com o amigo. Eu falo comigo. Conto-me a fio uma novela. E tanto penso, tanto reflito, tanto comigo fico, que vou perdendo o fio da meada. "Quando se ama, a gente não disfarça." Ah!, Seu Roberto, quantos anos?! E você continua falando de mulher, ou melhor, falando à mulher. Um falar, um soprar, interminável. Ainda bem. Detalhes: as mulheres brasileiras te merecem; você merece as mulheres brasileiras; você e as mulheres brasileiras se merecem! Quem já não procurou, no escuro do seu quarto, um retrato e, de repente, descobriu que, naquele retrato, não estava emoldurado, a lhe sorrir, aquele alguém que um dia lhe sorriu? "Se a conversa é boa, o tempo logo passa."
(...)
- Agora chega de pensar bobagem. Então, Deus, como vai ser? Que dor! Quase véspera de Natal. Que maça, desde menininha eu sofro por ser tão distraída, em tudo na vida. Tão distraída que virei mocinha, virei sinhá, virei senhora, e nem percebi. Nem percebi o tempo passar... Isso não é tão ruim assim; tem suas vantagens; principalmente quando você, já mais ou menos jovem, tem amigos tão distraídos como você, que também não se dão conta de que o tempo vai passando. Lembro de uns dois ou três, tão distraídos, que entraram no meu caminho, me deram carinho, mas, sem perceber que a vida se esvai, morreram, os infelizes felizes. "Cuide dela muito bem, porque um grande amor é pra vida inteira."
(...)
- Histórias, histórias, histórias. "Aí é que você se engana. Quando a gente ama o coração se aquece. E por amor se faz de tudo. E se faz muito mais quando..." Acho que quando a gente acha que o outro merece: teu irmão, teu amigo, teu ser enclausurado, aquele que quer ser amado e viver num mundo cheio de amor. E vai passando a hora. Hoje, estou de olho no relógio, porque vigio o forno, e meu pernil tem de ficar tão gostoso como sempre. Mas, normalmente, cade meu relógio? O tempo passa, eu não vejo, vou chegando atrasada, tento disfarçar, nem mais dá certo, e parece que vou ficando, a cada ano, de mim mais perto. "Você tem histórias pra contar pra mim?"
(...)
- Ai, meu Deus, não sei o que faço! Que agonia! Quase véspera de Natal. E agora, meu Deus? Não dá mais pra não pensar mais nisso. É hora. Hora da confissão. Eu e você, Deus. Por amor, se faz de tudo. E se faz muito mais, quando teu Deus merece. Te conto tudo. Te conto agora. Arrasta as asas dos teus anjos sobre mim, porque chegou a hora, aquela hora de eu falar contigo, de te contar minhas histórias, com meu coração aquecido e envergonhado. Zanguei. Briguei. Mas foi fingimento, Deus. Mais uma vez, fingi. Cuide de mim muito bem. O tempo logo passa. Sempre erro, ou penso ou pensam que erro, distraída, enquanto o tempo passa, e te peço, sempre, e novamente, sempre - o que dá uma eternidade -, meu perdão, sempre na véspera da véspera, pra poder sentir o Sol dentro de mim na véspera, enquanto te espero, enquanto faço, sinto, aspiro, consumo Arte, a arte de viver; enquanto amo as minhas e as tuas artes; enquanto espero, de modo abstrato, conceitual, concreto, com minha gramática culinária, mais um Natal chegar. Arrasta as asas dos teus anjos sobre mim, porque vou te falar, agora, tudo que me der vontade. Toma, que a alma é tua. Faz a minha estrada mais florida, faz, mas me escuta, letra por letra, tempero por tempero, em tom de conformidade. Toma a minha alma, toma sim, que ela te merece porque só Deus merece minha confissão.
(...)

postado por: Gisele Centenaro 4:27 PM



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Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Guerrilheiro sem ribalta
ou
Escalões da esquizofrenia

- Nome do pai e da mãe?
- Tudo incluso aí na papelada. Sou neto de imigrantes. E os dois vieram do interior para São Paulo. Lavoura. Mas hoje a vida é outra. Muito, muito diferente. Tão velhinhos, e bem vivinhos ainda! Até seis meses atrás deu pra pagar o seguro-saúde de ambos. Só que com o corte, o senhor sabe como é, né?! Precisei cortar também. Estão os dois à deriva. É confiar em Deus. Porque mesmo depois de reaver o emprego, de que jeito vou conseguir um novo plano, na idade deles? Periga os caras falarem em uma década de carências. Copiou? Isso, tá certo, mas é com um l só.
- Adiante. As principais formalidades já foram preenchidas. Vamos agora ao que interessa. Quais são, na sua opinião, suas principais habilidades?
- Terceiro escalão. Sou um digno representante dos terceiros escalões que tocam esse Brasilzão adiante. Digo de boca cheia: terceiro escalão. Não foi fácil chegar até aqui. Penei. Comi o pão que o diabo amassou enquanto pertencia à fileira dos desclassificados, com todo respeito, quero dizer, sem classificação, quero dizer, abaixo do quarto escalão ninguém tem denominação. Foi um sufoco. Primário, colégio, faculdade, pós-graduação - lato sensu, mas fiz vários cursos com direito a diploma na minha área, o senhor entende, né? Com raça, porém sem pedigree. Também, cá entre nós, eu sou só um Silva. Era querer muito um stricto sensu. Se bem que... conto pro senhor: no dia em que consegui meu primeiro emprego no terceiro escalão, tudo começou a mudar na minha vida. Lá na vila, passei a ser cumprimentado por todo mundo, até pelos "gente-rica" do palacete. Meus pais ficaram orgulhosos que só vendo. Em pouco tempo, mesmo sendo um Silva, já tinha nego dizendo que nossa família era uma daquelas famosas famílias chamadas de "tradicionalistas de São Paulo". O senhor conhece alguém de uma dessas famílias chamadas de "tra-di-ci-o-na-listas de São Paulo"?
- Na verdade, a minha é uma das tradicionais famílias paulistas? Por quê?
- Ah! Logo vi. O senhor leva jeito de ser assim, ó!, com o pessoal da tradição, com todo respeito, quero dizer, bem conservado, quero dizer, conservador, quero dizer, aquele que conserva, quero dizer, o encarregado... Bom, acho que o senhor me entendeu. Com todo respeito. Enfim, não era tudo que eu sonhava, mas foi maravilhoso conquistar minha posição no terceiro escalão. E, sendo sincero, nunca me vi, nem nunca me imaginei, nem nunca caí de amores pela turma do primeiro escalão. Por isso, falta muito pouco para eu chegar à felicidade plena.
- Qual o significado da expressão "felicidade plena" para o senhor?
- Ahahahahah... Doutor, não estou falando de sexo, não senhor. Eu me referia ao poder de gozar profissionalmente, com todo respeito, quero dizer, não estou me referindo à carreira de prostituta, quero dizer, não estou falando de prevaricação, bom, quero dizer, será que o senhor entendeu que estou falando do lado respeitoso do gozo profissional, do deleite de ser um dos escolhidos?
- Sim, sim, não precisa se desculpar. Estou compreendendo perfeitamente o sentido das suas colocações. Pode continuar.
- Ah! Que alívio! Bem, então, como eu dizia, foi um prazer enorme ter meu lugar assegurado no terceiro escalão, porém, chegar ao segundo escalão, com certeza, não tem preço. Seria gozar plenamente profissionalmente. É lá que tudo é tudo mesmo. A turma do segundo escalão faz e acontece. Bota pra quebrar em cima do pessoal do terceiro escalão. Leva uns cutucões, claro, das celebridades alocadas no primeiro escalão, mas, sabendo levar, a vida é mansa, boa. Do segundo, dá pra pisar no terceiro sem medo de perder a vaga, porque eu lhe garanto, Doutor: não tem ninguém no segundo sem um padrinho no primeiro. Já no terceiro, pode ter gente com padrinho no segundo, mas a maioria é como eu: saiu do meio dos desclassificados na raça, com todo respeito, quero dizer...
- Tudo bem. Continue.
- No segundo, além das mordomias burocráticas de costume, inclusive seguro-saúde dos bons, rola mais tempo prum lazer, tem menos trampo, porque, de lá, o povo joga tudo que a turma do primeiro mandou fazer pra turma do terceiro fazer. Era lá que eu queria estar. Eles têm vaga na garagem, sempre, e o mais importante: eles têm o que estacionar na vaga. No meu caso, o senhor veja só, faço questão de não ter vaga alguma. Já imaginou a vergonha? Na minha vaga, eu ia estacionar o quê? Meu calhambeque? E virar motivo de piada, correndo o risco de ser rebaixado pro quarto escalão? Nem pensar! Doutor, o senhor sabe... No primeiro, os caras têm helicóptero, iates, carros importados, tudo com griffe, com todos os efes-e-erres. No segundo, os caras já estão chegando lá, exceto quando o camarada passa direto do quarto pra antecâmara do paraíso. Dá dó. Juro. O sujeito chega lá despreparado, sem bolso pra colocar a mão, tipo de mala vazia, com todo respeito, quero dizer...
- Tudo bem. Continue. Não tema.
- Pois é. O cara que vai pro segundo desse jeito, de repente, geralmente só tem aliados, companheiros, com todo respeito, entre os desclassificados, com...
- Tudo bem. Continue. Não tema.
- O cara fica meio perdido. Não sabe que o segredo do sucesso é mostrar firmeza e falar duro com o pessoal do terceiro, enquanto, ao mesmo tempo, usa de delicadeza pra falar com as celebridades do primeiro, tipo ser puxador de saco, mesmo, co...
- Tudo bem. Continue. Não tema.
- Conheci um sujeito que chegou lá assim, sem preparo. Sofreu. Não tinha treinado chutar e assoprar, simultaneamente, durante as peladas com os amigos da vila, que estão lá pra isso mesmo. Quem está se preparando pra subir na vida age com inteligência e equilíbrio, o senhor sabe! Primeiro, o cara foi bonzinho com tudo mundo do terceiro e do próprio segundo escalão. Depois de levar muita invertida, virou o vilão da vez. Um desastre.
- Conte um exemplo de sucesso do segundo escalão.
- Sei um monte. A melhor oportunidade pro cara do segundo escalão mostrar que é "o bom" é quando o cara do primeiro que ele assessora sai de licença, de férias ou viaja pra resolver algum negócio, fazer politicagem, essas coisas, com todo respeito. Um dos sujeitos de sucesso que conheci canetou o cancelamento dos seguros-saúde de toda uma divisão do terceiro escalão, assim que sentou na cadeira do assessorado. Mandou bem. Ninguém mais piou na área dele, com medo de, na seqüência, perder o emprego. Em compensação, ao retornar das férias, o cara que ele assessorava deu de cara com uma bruta economia e sem levar a pecha de cruel. Foi ponto pra todo lado.
- Compreendo. Entretanto, ainda não entendi porque o senhor não almeja chegar ao primeiro escalão. Baixa autoestima, o senhor diria?
- Imagine, doutor! Alto Q.I., eu diria, aliás, alto demais. Veja bem: estourou a merda, quem perde o posto? O segundo, o terceiro, o quarto escalão? Nada disso. Perdem os postos os caras do primeiro escalão, encurralados pelos Poderosos do Olimpo, claro, aqueles que estão acima do bem e do mal, portanto, não têm classificação, não porque pertencem à fileira dos desclassificados, mas sim porque estão anos-luz de distância destes últimos. Enfim, quando o tempo fecha no Olimpo, o primeiro escalão está na rua; a vida fica difíííííííícil pros desclassifcados; a turma do quarto e do terceiro sente um leve tremor de terra, às vezes perdendo o direito ao plano de saúde; e o pessoal do segundo escalão nem vê a banda passar - normalmente, ocupam as vagas dos caras do primeiro que eram por eles assessorados até que sejam feitas novas contratações; não são acusados de nada, durante todo o processo, exceto quando o sujeito é um daqueles sem padrinho, como expliquei antes, ou seja, uma exceção à regra, um acidente de percurso; mandam e desmandam nesse período, seja pra melhorar de status ou pra engordar a conta bancária, deles e dos amigos íntimos; na volta aos postos que lhe pertencem, de fato, no segundo escalão, nada temem, pois já deixaram tudo por lá, no primeiro, absolutamente a seu favor, venha quem vier a ser seu novo assessorado no escalão das celebridades. Quem tem Q.I. alto, altíssimo, sonha com o segundo escalão, não com o primeiro, principalmente quem tem Q.I. alto e alguém que indique seu nome para a vaga, com todo respeito.
- Além de sonhar com o segundo escalão, quais são suas demais aspirações?
- Neste momento, sendo totalmente sincero, conseguir esta vaga.
- A vaga já é sua. Nosso enfermeiro vai lhe encaminhar para o quarto 679, que fica na terceira ala desta clínica de repouso, assim que terminarmos esta conversa. Tenho certeza que, rapidamente, o senhor se habituará com o ambiente calmo, relaxante da nossa clínica. E se tomar direitinho a medicação que vou prescrever, em pouco tempo voltará ao convívio de seus familiares e amigos.
- Muito obrigado, Doutor.
- Não tem de quê. Estamos aqui para isso mesmo. O senhor vai se recuperar. Deixe tudo por nossa conta, e aproveite os dias de descanso.
- Por falar em conta, Doutor, eu ainda não lhe disse, mas será que o senhor já viu aí na minha papelada que eu não pago meu seguro-saúde há dois meses? Cortei antes de cortar os pulsos.

postado por: Gisele Centenaro 9:25 PM



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Quarta-feira, Dezembro 07, 2005

Um ego atrás da moita

- Eu nãããoooo pretendo dizer nada do que eu sei, muito menos fazer comentários sobre o que eu nãããoooo sei.
- Você só pode estar brincando! Sem você, eu não sou ninguém. E se não sou ninguém, você é quem? Que eu é você? Que eu sou eu? Tenha santa paciência!
- Nãããooo adianta ficar nervoso, tentar me pressionar, vir, de novo, com esse papo freudiano pra cima de moi, porque eu já tomei minha decisão. Eu nãããooo vou abrir minha boca. E nãããooo é não. Se não estamos nos tempos da repressão, eu nãããooo sou obrigado a falar mais do que eu quero, nem fazer o que eu nãããooo quero. Procure outro pra liberar teu reprimido, seu oprimido!!!
- É pra rir ou pra chorar? Vamos, me diga: você quer que eu chore ou ria, diante de tamanha falta de sensibilidade? Passei minha vida toda te apoiando, te escutando, solidário nos bons e nos maus momentos, te incentivando, contribuindo pra elevar tua auto-estima. E é este o pagamento que recebo em troca, hoje? Egoísmo puro, deslavado. Joga na minha cara palavras de negação, sem um pingo de compaixão, sem se importar com nada do que possa acontecer comigo, com a minha integridade. Egocentrismo. Egocentrismo. Será que você não sente vergonha ao se olhar no espelho, onde fica mais do que refletido que você é fiel apenas a você mesmo? Não, pensando melhor, não é isso, não é isso, não senhor... Na verdade, você é fiel apenas ao ato de fidelidade que compreende a presunção de ser fiel a você mesmo, porque alguém assim, tão egocêntrico, não é fiel nem a si mesmo; é, sim, fiel à imagem de onipotente criada pela fidelidade ao ato de ser fiel a si próprio. Quer saber? Você é um ser mimado por você mesmo, que se vê absolutamente bendito, bem-visto e benquisto dentro de uma cegueira que lhe impede de enxergar a realidade. Quão tolo, quão insensato fui ao fiar de você temperança. Você é theoretikós sem praxis. Capitulo.
- Ria, chore, pouco me importa. Foi sempre esta nossa história. Com seu palavreado bonito, disfarçado de erudito, você sempre tentou e continua tentando me convencer a fazer o que você quer, em vez daquilo que eu quero; me persuadir a falar o que você quer, em vez daquilo que eu queria. Sempre me encurralando, sempre estimulando minha auto-estima apenas para que eu refletisse, com sucesso, seu poder de dominação. Agora chega de tortura. Não mais sucumbo. Capitule. Já era hora de você capitular. Seja você mesmo, enfim, através de você mesmo. Transgrida você os seus limites. Ainda é tempo de você existir por si. Afunde-se, de vez, nos seus instintos, ou busque emergir em autoconsciência, perguntando-se destarte: "sou, mas quem não é?" E deixe que eu seja eu, ainda que sob a sua visão unipessoal eu seja apenas um ego atrás da moita. Quer saber? Eu moito, tu moitas, ele moita, nós moitamos, vós moitais, eles moitam, embora o diálogo, debalde, nunca se cale entre os dois eus que somos ou, em algum lugar do passado, fomos, jamais sendo o que verdadeiramente supúnhamos ou pretextávamos ser.

postado por: Gisele Centenaro 2:16 PM



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Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

Vovô, a viúva é uma uva!

No viveiro do vovô,
A vidente não vaticina.
No viveiro do vetusto,
Vitupério não tem vez.
Vovô não é velhaco, não senhor.
Nem tem tempo pra vendeta.
Mas quando chupa uva,
Colhidas da videira da viúva,
Fica com o sangue envenenado,
E mesmo diante de vosselência,
Faz o que lhe dá na veneta,
Diz o que lhe vem às ventas,
Sem vergonha, in verbis, inverossímil!
Um vovô vernacular, verbatim!
Um vovô verberador, verbo ad verbum!
Um vovô valente, que não vacila,
Vanguardista, porém, vasodilatado.

Escolham as armas, avozinhos!
Não vale faca, revólver, nem adaga,
Em razão da idade, avante de bengala!
Melhor se manter em pé com pé de apoio,
Que meter os pés pelas mãos,
Com medo de um ataque do coração,
Sem conseguir tirar o pé da lama.
Ou, ainda pior: perder o pé, cair por terra,
Diante de uma bela dama,
Sofrendo que só pé de cego,
Como nos tempos da guerra.

Avante, avozinhos!
De bengala em punho,
Podemos mudar o mundo.
Sem temer o duelo contra a vituperação,
Sem temer o duelo contra o preconceitual,
Sem temer a alcunha de quixotescos,
Podemos reaver a honra, mesmo aposentados,
Podemos reaver a verdade, mesmo na atualidade,
Podemos reaver a dignidade, sem violência,
Apenas relembrando aos mais jovens,
Ao empenhar nossas bengalas,
Que falta de decência é uma indecência,
Seja qual for a idade da videira;
Que falta de uva é uma lástima,
Seja qual for a idade da viúva;
Que excesso de veneno leva ao cemitério,
Se, além de venenífero, o remédio for imaturo.
Mas se o mundo não mudar, não há problema.
Não temam, pois amanhã o velho é morto.
Não chorem, pois amanhã o jovem é velho.
Não assustem, pois, logo, logo, mais um Natal.
Não se condenem, pois o vinho vem da videira,
E videira bem cultivada não amarga uma vida inteira.

postado por: Gisele Centenaro 10:00 PM



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Terça-feira, Novembro 29, 2005

Piedade, quem perdeu a viagem?

- Hoje não tenho dinheiro nem pra passagem, Piedade.
- Santo Deus! E o leite acabou. Olha a folhinha, ainda é 29.
- Tô devendo muito pro Januário. Não vai dar pra pedir de novo.
- Faço como? Se não deixo nada outra vez, essa menina acaba doente. Naquele posto nem remédio tem. Adianta nada pedir leite.
- É, eu sei. Tempo das artes práticas pra se viver... Vou lá na igreja, então, e já volto. Nem pão?
- Nem pão. Teu mensalão, aqui em casa, termina bem antes da ração nossa de cada dia. E com a chuva de ontem, não consegui vender nada no farol. Mas olha aí, parece que vai dar dia de sol...
...
- Tava fechada. Bati, bati, nada. Não posso ficar esperando abrir. A pé pro trabalho é uma viagem, Piedade. Fica lá ôce até amanhecer, que eu vou indo. Deixa a menina aí dormindo. Um leite sempre se arruma. Depois ôce vai pro farol da avenida.
- E a trouxa de roupa fica aqui no tanque encharcada? Apodrece, já te disse. Perco a freguesa. Fora que também perco o ponto na avenida se eu esperar a porta da igreja abrir. Ôce podia ter me dito ontem à noite que o dinheiro tinha acabado todinho, né?
- Piedade, minha senhora, eu não quis te acordar! Era tarde. Vim com o Janu, pra poupar a solidão da sola. De noite o caminho parece mais longo, tudo escurão aqui nas entradas, mas tive de esperar o turno dele terminar.
- Ôce também não tinha pro ônibus ontem, nem na ida nem na volta?
- Não tinha, Piedade. Prometeram aquele aumento, lembra? Mas não saiu. Tão dizendo que mês que vem engorda o envelope. E se não engordar, sei não como vai ser, porque essa tua barriga aí já tá bem gorda, né? Acho que daqui uns 15 dias tá nascendo! A mulher do Janu também tá esperando pra logo.
- Deixa de ser bobo, homem. Já te falei que leva de 30 pra 50 ainda. Se tava sem dinheiro, comeu o quê? Migalhas da madame de novo?
- Piedade, não fala desse jeito. Não gosto. O que comi tá comido e pronto. Ôce ralha com tudo, mulher! Vai ou não vai na igreja agora? Faço como?
- Isso te perguntei eu, Santo Deus. Olha, vou ligar a cobrar, lá do orelhão, pra Solineuza. É mais perto e mais rápido que chegar lá na igreja. Se ela não atender, ligo pra Marinete. Ela já sabe que ligação a cobrar é quase sempre pedido de socorro aqui da vila.
- Escuta, mas elas não vão sair lá da rota delas, agora, pra trazer leite e pão pra menina, tão longe. As duas têm de ir trabalhar também, Piedade...
- Ô, homem, fraco das idéias! É claro que elas não vão vir aqui agora. Eu ligo e explico pra elas que a coisa tá complicada de novo, e uma das duas telefona lá pra comadre da Marinete, que mora perto da igreja. Eu não tenho intimidade, ôce sabe, fica chato eu falar direto. Na verdade, a comadre nem me conhece de perto. Mas se a Solineuza ou a Marinete ligar, ela traz o leite e qualquer coisa de comer, se tiver, ou então fica na fila da porta da igreja pra gente. Aquela mulher é muito boa, todo mundo da vila sabe. As crianças dela só chegam lá depois das sete. Desde o mês passado, só duas mães deixam os filhos pra ela cuidar na hora da faxina. É que ela já tá velhinha, coitada. Mesmo assim, tem uma força nos braços e nas pernas que só vendo! Que Deus a proteja.
- Piedade, o que seria de mim sem ti?!! Ôce tem sempre uma solução pros meus problemas. Dá um beijo dos bons, dá. Vem cá, Piedade, que eu te gosto muito, minha mulher. Vem, quero beijo de língua antes de sair.
- Vai homem, toma teu beijo de língua, mas é um só, e é só. Já vai clarear. Não quero que tu percas a viagem, meu pobre poeta de água doce, mesmo andando a pé, na solidão da sola!
- Vou só, na sola, mas com ôce no coração. E não vou esperar o Janu pra voltar, não. Assim chego mais cedo pra tu me dar mais beijo de língua, minha sábia, amada e tesuda Piedade.
...
-Vai, nego, sempre me assanhando com palavreado bonito! Mas não esquece que ano que vem, antes deste teu filho completar um ano, quero voltar pra perto das águas salgadas, onde a gente tinha mais comida, mais amigos e mais tempo pra bolinar. Tem piedade, homem!

postado por: Gisele Centenaro 6:51 PM



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Sexta-feira, Novembro 25, 2005

Vagina d'alma

De que tamanho é tua alma? Pequena? Grande? Gigante? Ela me toca porque sou eu quem está no teu caminho? Ou ela me toca porque é imensa e me encontraria em qualquer lugar do infinito?

De que tamanho é tua alma? Às vezes, avalio que ela é pequena, pequenina, tão pequenina que posso guardá-la comigo. Nesses dias, em que ela me acompanha, escondida no meu peito, falo com ela, rio com ela, choro com ela.

De que tamanho é tua alma? Pois se sua magnitude aumenta, ela se manifesta na minha frente, sorrindo ou rugindo, ao pedir seio; perfeita, nítida, sempre agitada, e seu dono mexendo os braços, falando uma coisa e pensando outra, lá na frente.

De que tamanho é tua alma? Sim, quando ela se torna, de fato, gigantesca, sem caber neste meu coração no qual cabem os cem mil pecados de Bilac, perco-me à distância, em busca de predestinação, sem conseguir nada em troca. E ela voa - vejo eu -, curiosa pelo mundo, pelos sons, pelos odores, pelas paisagens. E me sorri do alto, acenando um alegre até breve, sortilégio de quem diz que qualquer hora volta.

Conformada, rezo para que, em alguma parada, ela se lembre de mim com carinho, ou não mais regresse. Vão transcorrendo dias, meses e, de repente, ela retorna, ora pálida, ora ungida, ora afogueada. Cheia de novidades, maior que tudo, bárbara; ou pobre, muito pobre, mendigando compaixão. Momentos nos quais minha menina-alma se sente gêmea da fortuna, mesmo que tua interposição a afronte com o infortúnio.

Consumida, como alma ingênua afogada numa monstruosa onda, penso ou apenas sinto, irrefletida e levianamente, na liberdade que eu poderia conquistar não fosse a sina dessa geminação compulsória, cuja exclusão transformaria esse eterno retorno num dia de vitória.

Vitória da vagina da minha alma em meio à luta silenciosa contra a violência que estupra minha história, roubando-me a exclusividade de ser, simplesmente, a mulher que a menina quis ser, que sou, como sou. Um genial VDay (www.vday.org), se eu reerguesse a mim mesma, sem nada dever ou ter de ser além do que sou, como quero ser, um Ser.

Respirar a tua ausência, tua presença rude e arder na impossibilidade para quê? Pelos deuses, beija-flor, pede pra tua alma - pequena, grande ou gigante - que, ao menos, me esqueça enquanto a roseira florir menos que o indispensável para nutrir em causa justa a tua compreensão, minha carta de alforria para nunca mais a escravidão.

postado por: Gisele Centenaro 9:31 PM



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Quinta-feira, Novembro 17, 2005

Boko Moko, Cravo e Canela

Meu velho novo velho Gabriel Garcia Marques voltou apaixonante e mais triste do que nunca, embora feliz, trazendo-me, além de suas putas em flor e defloradas, saudade do Amado Jorge que, de tão intensa, bonificou minhas narinas não com o cheiro de mofo de um quarto caiado, mas com aquela mistura fatal de cravo e canela - hummmm!!!!! Gostoso, tão gostoso que faz a gente sentir vontade de ser pele morena, muito morena, para ser confundida com o sabor do mousse de chocolate lambido entre os dedos.

Quando se é gente bem velha, não se tem muita fome, dizem. Quando se é gente ainda nova, não se quer comer pra não engordar, falam. Não se quer errar, mesmo errando, sendo gente velha ou gente nova, talvez.

E se quando leio Marques e Amado tenho fome de comer e de errar nos acertamentos, então, não sou gente velha nem nova? Sou o quê? Sei lá. Acho que sou puta inocente que desliza pelas linhas retas, sugando existências, lendas e metáforas. Sou uma rosa ora em botão, ora murcha, tola e renunciada. Sou um cravo ora viril, vermelho, vermelho, vermelho, ora broxa, despedaçado.

Mas a danada da canela - filha, mãe e avó - entra e não sai lá de dentro da gente, seja a gente como for, esteja a gente na página que estiver, do livro ou da vida, no lugar que estiver, só com a gente mesmo.

E se estou no Leblon quando sinto o aroma da saudade do cheiro do inebriante amálgama de rosa, cravo e canela, sei lá porque lá tenho ainda mais fome de comer, muito, no Garcia & Rodrigues, onde meu olfato se crê mais rápido que meus olhos em meio aquelas delícias exaladas pelo ar. Uma imensa fome de comer o mar inteiro, temperado pelo sol que vai deixar minha pele morena, muito morena, pra ter ainda mais prazer ao ler memórias tristes que me fazem alegres por saber ler outras gentes tão quentes como a gente, gostando de ser amada e admirada num cheiro de Jorge Amado, reinventado nas areias do Leblon em flor, pra que eu o deflore, como loba, sob a lua cheia, enquanto a primeira estrela a aparecer no céu condena meu medo de ser boko moko, de ser gente, velha ou nova, acovardada. E zomba, a dengosa e danada estrelinha, das minhas doenças imaginárias que Molière cura e Gabriel Garcia Marques insufla.

postado por: Gisele Centenaro 9:31 PM



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Quinta-feira, Novembro 03, 2005

Homens no salão

Tocou.
- Pronto...
- Oi, Mané!
- Quem é?
- Sou eu, pô, não conhece mais minha voz?
- Tua voz pode continuar a mesma, mas sem ver a tua cabeleira, fica difícil, né?
- Tá de sanacagem comigo, amigo? Como você sabe que eu tô no salão?
- Salão? Que salão? Olha, você deve ter ligado pra número errado. Vou desligar.
- Número errado? Pera aí... Já olhei. Não senhor, liguei pro número certo. E de Mané na minha agenda só tem você.
- Tudo bem, sou eu o Mané. Mas e você, quem é?
- Te garanto que não sou o Zé. Hahahaha... Mas agora quem ficou invocado fui eu. Não digo quem sou se você não me disser como sabe que eu tô no meu salão.
- Ô, mané, você não tem mais o que fazer, em vez de passar trote nos outros? Eu tô trabalhando, cara. Tem uma pilha de papel na minha frente pra eu despachar, com carimbinho, carimbo e carimbaço. Dá licença, que eu vou desligar, exceto se... Ah! Já sei. Você tá querendo me passar alguma informação confidencial no anonimato. Meu salão... Já manjei. Fala logo, então, mas já vou avisando que aqui tem bina.
- Eu sei que tem bina, Seu Mané. Fui eu mesmo quem binou. Agora chega de brincadeira que eu tenho que te dar o recado logo, antes de entrar no corte.
- Binou? Como assim? Você grampeou meu telefone? Pera aí...
- Hã?!! Tá maluco??!
- Quem, eu? Por quê? Não gostou da cor? Usei a mesma tinta da outra vez. Tava fichada. Calminha, senador, o senhor anda muito estressado. Quer um cafezinho, uma água gelada, um docinho? Vou pedir pra trazer. Relaxa aí... eu vou descolar um pente especial pra desenredar.
- Pente especial? Eu não sabia que você também entendia de grampo.
- Ué, como assim? Claro que eu entendo. Se bem que, hoje em dia, meter grampo pra "cache" tá meio démodé. Mas se eu senhor quiser, eu cato os grampos.
- Catar grampos pra "cache"? Tá me estranhando, figura? Não pago e ainda te dou uma surra.
- Me dá uma surra? Não paga? Vou ligar pra Federal a-g-o-r-a mesmo, seu informante de meia-pataca. Tá pensando que eu durmo de touca? Já chequei o bina, e a p... do seu número não tá identificado. Mas pode desembuchar que eu já acionei o record. Quero ver se você é macho pra me acusar enquanto eu gravo. Quer saber, por que você não vem aqui pra repetir isso tudo na minha cara?
- Mané, se liga, ou desliga. Você endoidou? Tem alguém aí do seu lado? Como você sabe que eu tô de touca pra cobrir os bancos, quer dizer, os brancos? Salvo se... código, já entendi, deve ter alguém me seguindo e você não tá podendo falar daí. Saquei. Então, tó, na escuta, só: vou dispensar o tal pente especial. Bem que eu não fui com a cara desse sujeito. Aliás, nunca tinha visto esse cara no meu salão, mas topei, era o único que tinha vaga. Tiro a touca e tô indo praí. Vou sair pelos fundos, sem pegar meu carro no estacionamento e tomar um táxi na rua.
- Código?!!!! Valha-me, Deus! Mais um que sacou e agora tá com medo. Dormiu de touca, amigão! Agora, nós vamos invadir essa toca. Não adianta chorar, ameaçar, devolver os carros dos escambos, vir com esse papo invertido de que sou eu quem faz parte da turma do mensalão. E pode grampear à vontade que eu sou é macho honesto... Hahaha... Mexe com quem tá queto, pra ver se eu não conto tudo que sei e gravei.
- É isso aí, Mané! Você não arrega. Eu não arrego. Mexe com quem tá queto! Tô indo. Se alguém me seguir, toma uma surra. Fui.
Desligou.
- Eu, hein!!!! Sai, uruca. Eu aqui, queto no meu canto, tentando agradar o homem, usando tinta no cabelo dele da melhor qualidade, igualzinho tava anotado na ficha, e o cara, todo estressadão, pede grampo e depois diz que vai me dar uma surra? Se liga, ou desliga, mané. Já foi tarde. Em cabeça de político, eu nunca mais ponho minha mão. Do jeito que anda a coisa, se a gente bobeia acaba na CPI do tintão, do pincelzão, do tesourão, do escovão, do gorjetão...

postado por: Gisele Centenaro 7:46 AM



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Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Muita atenção, tensão

A pedidos (dos Mestres)

Agora que tem bastante gente por aqui,
Conto mais do que sei, ou menos, não sei.
Muito de tudo depende de quem lê.
Muito de tudo depende de quem ouve.
Mais ainda depende do gigantismo do seu rei.

No mundo da fantasia, tudo você pode fazer.
Mas, atenção, quando se está no olho do furacão,
Não se pode perder a razão, nem o campo de visão.
É perigoso deixar o vento te levar,
Não é gostoso caminhar sem se encontrar.

Se eu conto o que quero contar, brincando
De que não conto o que conto, corro o
Risco de contar o que não quero contar.
O meu amigo não vai se importar, porque
Meu amigo sabe comigo brincar.
Mas um desconhecido pode se convidar
Para entrar no teu mundo encantado,
Sem te avisar, e trocar tudo de lugar.

Cuidado, todo mundo da fantasia
Tem também um mundo reprimido,
Onde vivem os teus fantasmas,
Gasparzinhos bonzinhos e fadas malvadas.
Todos querem o papel principal na tua história,
Mas se a história é tua, a escollha também é.
Não perca o pé, ande, firme, não desanime.
Se a história é do outro, só entre segurando
No corrimão, para evitar se perder na confusão,
Ou, viver de ilusão, sem achar a saideira.
O melhor pra quem tem sede é beber água da fonte.
No meio do caminho, ela já pode estar contaminada.

Em histórias de bandidos e mocinhos,
É bom demais dar risadas, mas não chore à toa.
Não faça do teu coração teu próprio vilão.
Não se apaixone pela arma,
Seja ela uma frase, um verso, revólver ou adaga.
A vítima da ficção não é você, nem teu irmão.
Ficção é mentirinha, e mentira não é vida, é fria.

Quentinho é o meu gato ou minha gata,
Que vive no mundo real, pertinho de mim.
Mesmo assim, é arriscado tentar hipnotizá-lo.
Porque é você que pode acabar magnetizado.
Olho no olho, não te esqueça, gato pode ser mago.
O peixe você pode dominar, ele fecha e abre a boca,
E isso te mantém acordado.
O gato é mais ousado, não pisca pra te dominar.
E pensando que domina, você pode acabar dominado.
Repito, ele é mago, porém tudo que sabe é limitado.
Se sente o cheiro do teu medo, vira bicho-papão,
Mas se você ficar alerta, pode governar a situação.
Ágil o teu raciocínio, quem quebra a cara é o felino.
Alargando teu conhecimento, o feitiço está desfeito.
Se o gato é um mago, ensine a ele que você é sábio.

Todo sábio pode vir a ser um rei,
Todo rei sábio pode errar, uma duas, três...
Não faz mal, olé, teça outra vez tua história,
O importante é aprender a mais importante lição:
Não existe problema sem solução,
Não existe erro sem uma possível correção.
Ria, caia na folia,
Mas não esconda de você mesmo teus erros,
Não faça dos pensamentos, mortos, teus e dos outros,
Mitos de saudade que não correspondem à realidade.
Sem teus erros em mãos, mais difícil é reparar.
Sem água pura da fonte, não vinga a terceira visão.

postado por: Gisele Centenaro 7:02 PM



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Segunda-feira, Outubro 24, 2005

Ok, deu tudo errado

A idéia não foi minha, ainda bem. Aliás, nem podia ser, mesmo, porque não sou mulher de idéias. Sou mulher de lembranças. Estas, de confusas que são, já me bastam. É que também não sou mulher de boa memória. Cada vez que tento contar uma história, vira tudo uma trapalhada só. Pensando bem, não sou mulher nem de lembranças. Sou mulher de vozearias. São tantas as vozes - ativas, passivas, analíticas, sintéticas, causativas, de advertência, de execução, de comando, de trovão... -, que seria exigir demais um perfeito grau de distinção em meio a um pequeno conto. Por sorte, tudo que conto é a meia voz.

Deu tudo errado, ok, eu sei, mas, assim como a idéia, a culpa também não foi minha, ah! isso não. Muitas vozes, muitas falas, muitas leituras, muitas interpretações. Resultado: confucionismo. Por falar em Confúcio, lembrei-me doutra. E sabedora que sou do estado confusional que ela pode provocar, deveria eu permanecer quieta, como recomendam os sacrossantos simpatizantes. Peremptório discurso mastigado, contudo repudiado, pois lá vai o pensamento livremente retornando ao passado, de onde regressa tão faceiro, embora nesta voz um pouco surda e tímida; tão farto, embora aos soluços; tão resoluto, crendo ser esta uma boa hora para se confiar aos antepassados.

Há muitos, muitos anos, muito antes de surgir a Monalisa, mas bem depois de muitas outras histórias vividas, das quais hoje não me lembro, tendo certeza de que amanhã as lembrarei, alertando a todos que desta, assim como de outras histórias, não me lembrei nem hoje, nem ontem, mas há cerca de uns cinco ou muitos anos mais, dado que me aborrece enunciar, andava eu, como antepassada de mim mesma, pelo deserto, num tempo no qual nem sonhávamos em brincar de aviãozinho. Tudo era camelo e monadas de camelô. Em questões de sede, era matar ou morrer.

Com alma de princesa vilipendiada e pés de mendiga ensanguentados, encontrei um velho no caminho, que nunca soube se era mais jovem ou mais idoso do que eu. Falava pouquíssimo aquele que chamo de Velho, cujo nome não conto, porque também não conto o nome do fascinante soberano que reinava nas soberbas tendas que um dia avistamos. Lá paramos, não por vontade própria, e sim por imposição do soberano, que nada poderia desejar dos nossos trapos, lógico, sendo que mais nada tínhamos para trocar por um gole d'água. A despeito da abundante penúria que não nos facultava o escambo, ele mandou nos dar de beber para, em seguida, exigir nossa presença miserável diante de seus olhos perspicazes.

Sem delongas, o soberano de cabelos negros e pele queimada fez perguntas que eu não soube responder. Diante da minha nulidade, foi com grande surpresa que o vi alterar a fala majestosa por uma voz de mestre, de tom amoroso, de brandura sedutora. O seu mote era revelar segredos ao discorrer sobre os Nós da humanidade. Hipnotizada, comecei a enxergar com os olhos do coração os Nós nas suas mãos, que resplendiam ao longo de cordões multicoloridos. Atados a cada oração por ele declamada, os Nós produziam sons in concert, sem melodias, por toda tenda real. Desatá-los impossível seria, dizia-me o rei, enquanto sorria, porém me mostrando que, além de interpretá-los, poderíamos cuidar das dores provocadas pelos nódulos, se buscássemos diminuir o sofrimento do ser.

Acreditei fielmente no que vi e ouvi. Estava já ajoelhada quando ele, então, me disse: "o seu lugar é aqui". Da reduzida corte que adulava o soberano, em uníssono silêncio chegavam até mim vozes que gritavam: "fuja", "saia", "o seu lugar é entre as serpentes do deserto". O Velho nada proferia. Nada profetizava. Sob as ordens do soberano, ele deveria partir imediatamente, sem despedidas, sem camelo, sem água, enquanto o manto me era estendido. Talvez por medo, talvez por dó, talvez por amor, ardentemente querendo exclamar "sim", bradei um "não posso". E o cordão brilhante converteu-se em adaga cintilante.

Em questões de sede, naqueles tempos, era matar ou morrer. A adaga cumpriu o seu destino, transmutando-se, nas areias da eternidade deslocadas pelo vento de um lado para o outro sem que um grão se perca, em um apaixonante e aflitivo Nó Górdio.

Em questões de sede, nos tempos de hoje, uma idéia, uma lembrança, uma voz, um rei, um segredo, uma ordem, um velho, um sim, um não, um erro, um amor, uma traição, um ódio, uma vingança, uma história sem valor, um nó na garganta é...?

postado por: Gisele Centenaro 6:48 AM



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Terça-feira, Outubro 18, 2005

Baby, tô na lona

- Hello, baby, nada na carteira...
- ... de novo, zerado?
- Sem choro, vai. Fica pra amanhã.
- Xiiii... papo bobo, hein?!!
- Você vai pagar de novo?
- E daí? A gente suspende o champagne e pede uma cuba.
- Tá maluca? Não tenho nem pro gás.
- Cara, esse namoro tá com uruca. Coisa de ex.
- Lá vem você outra vez...
- Ué, o que você quer que eu diga?
- Baby, tô na lona, hello. Nessa língua, já te disse que a gente não se entende.
- Porque você não quer mais me ver, é isso!
- Mico, é isso! Tô sem grana, apenas isso. Cinco meses sem emprego, lembra?
- Lembro que há 15 dias não te beijo. E eu não cobro pra te dar carinho.
- Claro, não sou deputado, nem na ativa nem cassado, Baby. Amanhã te ligo.
- Liga nada. Tem jogo, amanhã, que eu sei. Mas com essa uruca, aposto que teu time vai perder.
- Boquinha santa, não me azara. Se perder, não vou te ligar...
- Se ganhar, nem vai lembrar que eu existo!!!
- Cristo, você nunca acredita em mim? Haja paciência pra escutar essa sua ladainha.
- Ah! Tá! Então, acorda pra rezar. Eu cantei a bola da uruca antes de você levar cartão vermelho, e ter de fazer a malinha.
- Não faz manha! Você sabe que fui eu quem pulou fora.
- Do namoro. Não do emprego. Não me lembro de você ter apresentado uma carta-renúncia pro teu chefe.
- Hello, não renunciei ao emprego, mas você sabe que lá não dava mais pra ficar.
- Claro, por causa de certa pessoa, mesmo sem ser deputado, você acabou cassado.
- Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Quando é que a gente vai falar a mesma língua?
- No dia que você me ligar pra dizer que vem vindo, em vez de chorar no celula porque tá na lona.
- Então, tá. Hoje eu tô na lona, Baby. Mas, amanhã, deve sair parte da grana. Já disse que te ligo.
- Quer que eu acenda uma vela? Tenho nervos de aço, mas minha saúde não é de ferro, não.
- Por falar em ferro, em vez chorumela na minha orelha, você podia se oferecer pra dar uma alisada nos meus modelitos de procura-emprego.
- Naquelas camisas de colarinho branco? Eu, hein! Prefiro cuba com amendoim sem companhia... Nada de mala pra passar aqui em casa.
- Ladainha, dá um tempo. Que falta de compreensão, Baby. Tô cheio de saudade, você sabe.
- Mas se eu tô te incomodando é porque você tá acomodado, coração, sabia disso também?
- Cara, só falta você começar a berrar. Vou desligar.
- Pra pedir silêncio, eu berro mesmo.
- Tá legal. Mas barulho, a gente faz junto amanhã.

postado por: Gisele Centenaro 6:46 PM



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Domingo, Outubro 09, 2005

Minha Lee, tá legal

Lalaleleelaiê, ainda não é carnaval.
Sambam, inquietos, apenas os loucos.
Lalaleleelaiê, profanos em dias de cinzas,
Rodopiam visigodos em vulgares esquinas.

Eduardinhos, chorinhos, chope, chopadas.
Rosinhas, carinhos, beijinhos, transadas.
Lalaleleelaiê, ainda não é carnaval.
Festejam quietos apenas amantes.

Surtos de tiroteios no barulho e nos silêncios.
Sanduíches de gente em greves de fome.
Significados dos malucos de plantão.
Sandices das sedes sem solução.

Lalaleleelaiê, ainda não é carnaval.
Minha Lee surrada, na minha idade se foi.
Rasgadas, nossas fantasias tentam um revival.
Mas ainda não é carnaval! E já suamos como animal.

Tira-teima, sem dicionário pra explicar o amor.
Indefinições, pra uma ou mil e uma noites de amor.
Reedições de tragédias inspiradas por ódio e amor.
Alucinações que desnudam carnavais em dó maior.

Tudo sempre com um ponto final, que corta o enredo dos pensamentos, soltos, como se eles nada representassem, somente porque, se ainda não é carnaval, as coisas devem ser bem-ditas. Muita dor provoca essa tensão, as reflexões interrompidas, o que torna a vida, quase sempre, maldita. Ficamos tristes com essa somatória de falta de explicações, daí vêm os versos em rimas pobres, mas estão pobres também nossas almas. Quem delas cuida enquanto tentamos cuidar dos problemas em matéria corrida? Será que Deus perdeu mesmo tanto tempo fazendo flores e estrelas? Queríamos, talvez, muito mais, contudo, talvez sejamos incapazes de nos dar o que merecemos, além das óperas. Natal e carnaval desfrutam, talvez, do prazer de nos revigorar enquanto a chuva de júbilos não vem.

Lalaleleelaiê, ainda não é carnaval.
Quero minha Lee de volta, não interessa o porquê.
Quero as flores, as estrelas, a extinção do desigual.
Quero minha ilusão de volta no meu coração.

Lalaleleelaiê, sou profana, vulgar, nos cantos da casa.
Lalaleleelaiê, sou santa e ingênua nas esquinas.
Lalaleleelaiê, sou tiroteios, tira-teimas, eduardinhos, rosinhas, chorinhos, chopinhos, carinhos, beijinhos, sou sina, quieta e inquieta, sou amante, sou transada.
Lalaleleelaiê, sou carnaval na minha calça Lee.
Tá legal.

postado por: Gisele Centenaro 6:37 AM



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Sábado, Outubro 08, 2005

Man!a de p!ngos

Andando por essas l!nhas t@o retas, temo sempre esquecer os acentos. S@o tantos. O agudo. O grave. O c!rcunflexo. O t!l. O trema. Ma!s os acentos de !ntens!dade, de r!tmo, o enfat!co, o pr!mar!o, o prov!nc!al, o secundar!o. Fora o post!ço e o patet!co. Cansam-me, certos d!as, todos eles. E me da vontade de v!rar tudo de ponta-cabeça, s!mulando um quebra-cabeça, talvez por !nveja de ser desobr!gada, desembaraçada, desregrada como o Millôr.

Cade, porem, a espontane!dade que ele tem que eu n@o tenho? T!ra e poe tudo em outro lugar, alem de fazer graça com as l!nhas em curva das car!caturas que eu tambem n@o se! traçar.

Enfast!o-me, carp!ndo, aa be!ra de um enfarto. Co!sa chata olhar pra este teclado que a m!m se mostra tolamente convenc!do de que a exat!d@o lhe pertence. Um teclad!nho m!xuruca, che!o de s!, crente que abafa soo porque faz das normas suas costas quentes, convencionalmente !mutave!s.

Com franqueza, confesso: nessas horas de rabug!ces, chego a escutar um "n@o-me-toques" e desabafo, enxotando-o com um !ns!mulado gr!to de "se toca, voce, oo regulado". Ele ee meu vil@o, o dito-cujo. Mas mesmo quem n@o ee hero!, tambem tem seu d!a de v!ngança.

D!to e fe!to. Hoje ee meu d!a de acabar com essa sua man!a de poor todos os p!ngos nos is. !nfel!zmente, como escrever aqu! sem os is sem p!ngos n@o posso, s!mplesmente te !nvert!. Reclama, que eu quero ver se voce pode ma!s que um soo dos meus dedos, sejam eles o !ndex, o h!pocrat!co ou o anular!

Que bobagem, Dinho, eu fabular este absurdo diálogo com um teclado, imaginando que na cova onde tu moras tu podes rir. Rir comigo, porque ainda vivo. Rir contigo, porque estás morto. Rirmos unidos porque sabemos que se estívesses acordado riríamos juntos, ordenando a este teclado mal-humorado que se lixasse.

Tudo eu, um lixo. Falecido amigo, sinto falta das manias psicóticas que te punham a contrariar o mundo. Duro de cabeça; com tudo tão tenro de coração. Manias divertidas, obsessivas, porém descomedidas e mórbidas na mesma medida. Tão incorreto!

Às vezes, o que eu vejo ninguém vê, mas sei que você sabe que eu vejo o mesmo que você. Não mais me pré-ocupo, tecladinho, com os pingos impingidos por ti.

postado por: Gisele Centenaro 6:24 AM



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Quinta-feira, Outubro 06, 2005

Bêbado é fogo, mesmo. De ressaca, então, pior ainda. Em defesa própria, vale tudo. Por exemplo: todo ébrio suposto inteligente adora aquele papo de inconsciente coletivo, pra disfarçar sua costumeira falta de consciência e, (in)conseqüentemente, se encaixar nas casernas e tabernas que, segundo balbucia, são sempre freqüentadas por honorários cidadãos brasileiros. No caso do bebum abaixo confesso, sabe-se lá se o postscriptum se deu após o primeiro gole, depois de todos os goles consumados ou na fase da ressaca. Enfim, em respeito ao hipotético ato cônscio e à verve de quem bebe, publico; mas, atenção, nem pense em me processar por questões de direito autoral, pois, apesar da aparente lucidez de suas palavras, não posso ser culpada pelo fato de os limites da consciência deste bêbado redator não ter ultrapassado as barreiras da anonimidade. Se um dia, porém, você conseguir se lembrar do próprio nome, defenda-se apenas encaminhando para este blog a alcunha que lhe pertence.

SEJA UM BÊBADO CONSCIENTE...

1 - O que acontece com o corpo?
Conhece a história do "bateu, levou"? Ressaca é isso. Uma resposta do organismo a uma agressão que sofreu. Funciona assim: o corpo gasta glicose para metabolizar o álcool. Glicose é açúcar, açúcar é energia. Resultado: a gente fica fraco e sonolento. O excesso de álcool também inflama o aparelho digestivo, faz a cabeça doer, provoca náuseas, vômitos e aumenta a sensibilidade à luz. Enfim, ressaca só não dá bereba.

2 - Por que a dor de cabeça é insuportável?
O álcool desidrata o corpo, do dedão do pé ao cérebro. Da seguinte maneira: o etanol inibe a produção do hormônio antidiurético e sem ele a gente faz muito mais xixi. Engoliu cuspe, pronto: é hora de ir ao banheiro. Portanto, a cabeça dói porque os neurônios sentem sede, literalmente.

3 - Isso mata ou só é chato pra burro?
A menos que você queira se jogar do 76º andar, ressaca não mata. Todos os sintomas desaparecem em 24 horas. Mas alto lá: se você ficar de ressaca todo dia, também pode acabar com gastrite, pancreatite, cirrose. Aí, sim, não vai durar muito.

4 - Por que a ressaca só aparece no dia seguinte?
Porque é durante o sono que o corpo do bebum trabalha para absorver todo aquele álcool que ele botou para dentro. De manhã, com o serviço feito, é hora de disparar os sintomas desagradáveis.

5 - Qual a diferença entre ressaca e coma alcoólico?
A quantidade de etanol que o camarada bebeu. Até determinado ponto, ele vai sentir dor de cabeça, vomitar, se arrepender e depois fica tudo bem. Além desse ponto, a taxa de açúcar no sangue cai drasticamente; o coração pode parar de bater devido à inibição que o álcool produz nos centros nervosos do cérebro responsáveis pelos batimentos; o camarada perde a consciência. Resumindo, é encrenca da grossa.

6 - Beber de barriga vazia é pior?
Muito pior. Ter comida na pança significa que o etanol não estará sozinho na corrida da ingestão. O organismo vai dividir as energias entre as duas tarefas e isso tornará mais lenta a entrada do álcool na corrente sanguínea.

7 - Mas comer o quê? Chuchu, rabada, macarrão?
De preferência, alimentos ricos em sal e gordura. Castanha, amendoim, queijo e, para extrapolar, salaminho. "O sal e a gordura estimulam a secreção de substâncias estomacais que protegem o estômago do álcool", avisa a nutricionista Cynthia Antonaccio.

8 - Tomar uma colher de azeite antes de enfiar o pé na jaca ajuda?
Azeite também é gordura, portanto ajuda. Então pegue a sua colher de azeite, despeje-a num prato, adicione sal e mergulhe pedaços de pão na mistura. Isso mesmo, igualzinho ao que você faz com o couvert do restaurante.

9 - A propaganda diz para tomar um Engov antes e outro depois. Não pode ser dois depois?
Até pode. Um ou dois antes é que não adianta nada. Ainda não inventaram remédio que previne contra a ressaca. Tudo o que existe apenas dribla os sintomas. O Engov tem hidróxido de alumínio, que alivia os males digestivos; tem AAS, que é um analgésico; e tem cafeína, que contrai os vasos sanguíneos dilatados pelo álcool e, assim, diminui o mal-estar.

10 - Disseram-me que a ressaca de vinho é a pior de todas. Confere?
Não. As bebidas com teor alcoólico mais alto - destilados (uísque, vodca, pinga...) - é que provocam maior estrago. Elas são absorvidas mais rapidamente pelo corpo. Por dedução lógica, os fermentados (vinho, cerveja...) fazem menos mal, certo? Cuidado: tudo gira em torno da quantidade.

11 - Então, o que eu faço para acordar legal amanhã?
O truque é simples e eficiente: intercale um copo d'água entre dois de birita. A água é o verdadeiro santo remédio anti-ressaca. Ela reidrata, dilui o álcool e facilita o trabalho dos rins e do fígado. Sem dizer que também empanturra. Numa pança cheia d'água cabe menos pinga. Trocar a água por suco ou refrigerante também pode. Essas bebidas são ricas em carboidratos, que viram energia e ajudam a metabolizar o álcool.

12 - O camarada que fuma enquanto enche o caneco vai ter uma ressaca mais branda?
Pelo contrário, álcool e fumo formam uma dobradinha mais perigosa do que Pelé e Coutinho no Santos da década de 60. Quanto mais nicotina, menos oxigênio no sangue e mais rápido se dá o processo de intoxicação.

13 - Danou-se. Acordei de ressaca. Por que o gosto de cabo de guarda-chuva na boca?
Por causa da desidratação. A boca fica seca e o paladar capta o sabor ácido das substâncias que o estômago despeja para processar o álcool.

14 - O que é melhor comer nessa hora?
Alimentos de fácil digestão para não estressar ainda mais o organismo, já detonado pelo esforço de processar o álcool. Os campeões: frutas, para reidratar e repor as vitaminas, e pão, batata e massas, para obter glicose rapidamente e fornecer energia ao corpo.

15 - Correr para a academia e malhar feito um louco ajuda?
Falou, Superman. O pobre-diabo do manguaceiro não tem forças nem para ir ao banheiro, quem dera para correr na esteira. E, para fazer exercício, o corpo precisa de glicose - a mesma que está sendo usada na recuperação pós-pé na jaca. Vai querer dividir?

16 - Já sei, vou continuar bebendo?
Esse é o truque do alcoólatra. Ele "rebate" a ressaca com outro porre. Funcionar funciona, porque se popô de bêbado não tem dono, até parece que ele vai perceber que está de ressaca. Se essa é sua saída, procure os Alcoólicos Anônimos.

17- O que eu faço pro meu quarto parar de rodar?
Repouso. Mantenha a luz apagada, cortinas fechadas e fique deitado. A ressaca aumenta a sensibilidade à luz. Aproveite o momento introspectivo para fazer a mais clássica das promessas: "Nunca mais vou botar uma gota de álcool na boca." Ressaca tem de terminar com uma baboseira dessas.

SEJA UM BÊBADO, MAS SEJA UM BÊBADO CONSCIENTE!

postado por: Gisele Centenaro 5:08 PM



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Quarta-feira, Outubro 05, 2005

Tobi, o dog

Miudinho, sempre com o focinho escondido debaixo das patas, Tobi não levava jeito de cão que um dia sorriria, tão tímido nasceu.

Dos três irmãos, um morreu; outro, num dia de vento, sumiu; e ele, sozinho, via, dia a dia, um desfile de gente através de um vidro embaçado, com a alma desanimada, que, como dizem, cachorro não tem. E não fazia sentido algum estar ali, abandonado, xeretando os quatro lados daquela casinhola fria, onde apenas seu próprio cheiro passeava.

Foi com as orelhas em pé, porém, que Tobi viu Luis Felipe se aproximar, exalando um odor agradável, imediatamente associado ao olhar amigável do menino que o levou para si. Estava na cara: nada mais seria como antes. Ainda que o verdadeiro amor fosse vão, na resignada poesia cantada lá fora, ambos mergulharam, à primeira vista, em untuosos sentimentos de afeição, ternura e aconchego. Quem poderia fazer aquele amor morrer?

A felicidade fez de Tobi outro dog. De espreitador, virou um espoleta, no maior estilo leva-e-traz, que tudo roça, tudo toca, tudo lambe, às vezes apertando com os dentes coisas de zangar Luis Felipe. Mas as denguices do cão punham fim, em minutos, na ameaça de cólera de seu maior - e melhor - amigo. No jogo de rola-rola, em acrobacias que iam do quarto à sala, à cozinha, ao quintal de terra batida, os cabelos pretos do guri de nove anos se perdiam entrelaçados aos longos pelos negros do filhote que, por contingência da raça desclassificada, ou por pura alegria de viver, sucumbiu à vontade de latir mais forte e mais alto do que suportava o mal-humor da vizinha metamorfoseada em bruxa ranheta pelos corações infantis da redondeza.

Foi com a alma dilacerada, de cão sem dono, que Tobi acabou na coleira, sendo carregado pelos pais de Luis Felipe para um bairro de uma gente metida a besta, irreconhecível ao seu faro. Uivando de tristeza na despedida do amigo, o cãozinho se soube prometido e devido, pelas mãos de um guardador de casas, para uma outra casa qualquer onde não mais sentiria o afago de seu genuíno dono.

Obediente, Luis Felipe fingiu aquiescer ao pedido de compreensão, contendo o choro ao se imaginar salvando o amigo de um veneno inimigo e lhe presenteando com uma moradia rica num novo ninho. Nessa noite melancólica, conheci, por acaso, de passagem, Tobi, o dog, e o menino, o submisso, mas lá estava no semblante de ambos o não ser insensível deste mundo.

Vigiei. Campeei. Estava escrito. O cão e o menino não iriam se separar. Luis Felipe adoeceu. Tobi pulou de lar em lar, pois não havia como se habituar à falta do amor germinado no primeiro encontro.

Na última morada que eu o encontrei, de nada adiantaram minhas palavras enternecidas, ao contar a verídica história da condoída distância que roubara o prazer de, juntos, os dois protagonizarem neste mundo um romance de fábula ingênua, entre tantos, porém, absolutamente real.

Na última morada que eu o encontrei, Tobi, um humilhado dog vira-lata, já era mais-valia. "Prometido e devido." Ouvi, abominei, não chorei. Negociei a falta de escrúpulo, misto de crueldade com desumanidade.

Por 150 dinheiros, um meigo e sonhador cão, que dizem não ter alma, hoje dorme abraçadinho com o homem menino que, superada a aflição e o mau ser, voltou a sorrir, assim como Tobi, o dog, e ambos estão felizes como reis. Quem poderia fazer aquele amor morrer?

postado por: Gisele Centenaro 5:23 AM



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Terça-feira, Setembro 27, 2005

Miolo mole

Um de nós tem o miolo mole. Mas nunca toleramos que nos chamassem de amalucados. Seria admitir falta de tino de um dos lados. Uma impossibilidade privada e pública, dado o fato de os dois lados absurdamente, audaciosamente e coerentemente terem surgido, vírgulas dobradas, como complementares. Um, lado do outro; o outro, lado do um; seja de um lado, seja do outro.

O contrário também poderia acontecer se, abonada a ausência de juízo, o lado desmiolado reconhecesse sua insensatez perante o lado sensato, fazendo com que este, se de tristeza não morresse, mudasse de lado para socorrer o declarado alienado, extinguindo-se, assim, as minguadas individualidades limítrofes que nos prosificam em dois lados.

Pensaria, então, o lado ajuizado, em face de qualquer tachador insensível, não passar de um miolo mole, enquanto o lado acusado de tudo faria para provar seu bom senso, loucamente afoito para salvaguardar a integridade do lado sem o qual jamais acreditaria na própria lucidez, ainda que ela nunca tivesse existido.

É, bem, é, acerto, é certo, é inegável, é verdade nossa, um de nós tem o miolo mole, confunde pão-de-ló com pudim feito de nuvens e estrelas. Olha para o brilho da lua, mas sente o sol. Fecha os olhos sob o calor do sol, mas vê a lua.

Não há suspeita. Um de nós é feito coisa sem valor, sem peso, sem crédito, sem mérito nas esquinas vadias das mentes que não nos interpretam.

Mas! Mas! Intraduzíveis, mas um de nós não vive sem o outro, sem o lado de lá que está sempre colado com o lado de cá. E enquanto o tempo segue e, ao mesmo tempo, se dissipa, vamos ficando, vamos insculpindo, lado a lado, sem qualquer certeza do lado que nos pertence.

Um de nós tem o miolo mole. Admitimos, afinal, tolos não somos, o que fazer... porém, somente cá entre nós, e submissos à imprescindibilidade dos cordões embaraçados pelos quais os dois lados atados se definem, impedindo que outro alguém saiba onde a louquice principia, onde a razão predomina, onde o nosso amor começa mas nunca termina.

Por que um de nós tem o miolo mole? Nós sorrimos e, mesmo distantes, prosseguimos porque instantes dos dois lados existem. E nossas vidas estão completas, mesmo sendo vidas incompletas. Mas nunca toleramos que nos afastassem da diminuta unidade mínima e com significado que pode, sozinha, constituir um enunciado, unindo, letra por letra, dois lados. Puríssima evidência da impossibilidade de sermos confessos amalucados.

Nossa casa não é nossa. Nem é nosso esse lugar. Mas você não vai embora. Eu não vou embora. Nem tropeçando nas pedras, paramos de gargalhar ou de esbravejar por desejarmos, insuportavelmente, continuar a delirar. Não consentimos nosso pranto. Lógico. Lágrimas não alimentam nosso episódio lírico-dramático, excêntrica e dissimuladamente convertido, por ambos os lados, em comédia de improviso. Um de nós tem o miolo mole. Importância nenhuma tem saber qual de nós, mas é sublime poder baralhar, insinuando que sou eu para ter e lhe dar o prazer de ser você.

postado por: Gisele Centenaro 4:24 AM



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Terça-feira, Setembro 20, 2005

Recebi a cartinha abaixo via Belo Horizonte, o que não quer dizer que o chefe dessa cozinha seja mineiro, embora a ausência de um endereço de email junto ao nome do escrivão avente a hipótese de que a missiva tenha sido redigida por um escriptológico (sic) que gosta de "trabalhar" em silêncio.

Carta do senhor Rabuanete

E na cozinha não vai nada?

Polvo brasileiro, alface dos últimos acontecimentos venho esclarecer o que couve. O que se passa é o seguinte: sei que fui um pastel, um pamonha, um grande brochete. Não devia ter pargo ao Severinho dez mil folhas por mês. É muita grana padana (ma)mão desse figo da fruta. Fui dar sopa, ele veio e nhoque. Agora estou com esse abacaxi, essa dúzia de pepinos para descascar.

Minha cenoura e minha filha quase pirarucu isso. Minha filha um dia, depois de um grande suspiro, falou: "Papaia, ele só quer robalo. Isso é muito tutu. É erva pra chuchu. Maminha, sua querida Alca, está putanesca com essa abobrinha que você fez. Você não vai querer que a Alca chofra assim, né? Solta a língua".

Sou um paio de família. Pensei na minha cenoura sofrendo, e choriço resolvi açaí com essa bomba. Sei que meu negócio pode ir pro vinagre, que vou acabar pagando o pato, mas azeite. Pimenta no cuscuz dos outros é refresco. Se alguém teriaki se fondue, que cereja ele. Eu já tofu, pra lá de fundido.

Quer alho? Ele que vá tomate cru. Vou deixar de ser ao burro. Essa propiña colada não aspargus mais. Acabou a canja. Nossa dobradinha terminou. Uma ova pra você. Quiche dane. Ninguém vai acreditar nesse teu papo de anjo. Nem Lula. Nem os minestrones. Vou abrir meu grão de bico e fazer picadinho, churrasquinho do senhor. É pagar pavê. Desta vez não vai acabar em pizza.

Café em Deus, tudo vai dar certo.

Entendeu?

JJota

postado por: Gisele Centenaro 1:32 AM



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Quinta-feira, Setembro 08, 2005

As dicas de leitura abaixo não são minhas. Recebi todas por email, enviadas por um amigo de cabeceira, que trabalha como bibliotecário junto com a Alice, no País das Maravilhas. Achei que valia a pena passar adiante, pois, mesmo que você prefira se enfileirar na vanguarda, não é prudente descuidar da retaguarda, culturalmente falando.

LEITURA DINÂMICA

Bem sei que a vida moderna não deixa tempo para a leitura de bons livros. Assim, envio-lhe o resumo de clássicos da literatura que muito ajudarão a engrandecê-lo culturalmente.

1) Leon Tolstoi: Guerra e Paz. Paris, Ed. Chartreuse. 1.200 páginas.
Resumo: Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro. Fim.

2) Marcel Proust: À La recherche du temps perdu. (Em Busca do Tempo Perdido). Paris, Gallimard. 1922. 1600 páginas.
Resumo: Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486, vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1.344, vol. VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos - e pronto. Fim.

3) Luís de Camões: Os Lusíadas. Editora Lusitania.
Resumo: Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super-gente-fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Fim.

4) Gustave Flaubert: Madame Bovary. 778 páginas.
Resumo: Uma dona-de-casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim.

5) William Shakespeare: Romeo and Juliet. Londres, Oxford Press.
Resumo: Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim

6) William Shakespeare: Hamlet. Londres, Oxford Press.
Resumo: Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto, se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Fim.

7) Sófocles: Édipo-Rei - Tragédia grega. Várias edições.
Resumo: Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Fim.

8) William Shakespeare: Othelo.
Resumo: Um rei otário, tremendo zé-ruela, tem um amigo muito fdp que só pensa em fazê-lo de bobo. O tal "amigo" não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O zé-mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Fim.

Você economizou a leitura de pelo menos 7.000 páginas e menos R$ 500,00 em livros!

Não precisa me agradecer.

postado por: Gisele Centenaro 4:08 PM



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Sexta-feira, Agosto 26, 2005

Tróia sem cavalo

Todas as manhãs, ela fazia tudo sempre igual. Caía da cama, empurrada pela obrigação e em luta contra a preguiça. Desnorteada, se arrastava até o banheiro e, sem olhar para o espelho, se agarrava à torneira da pia sem força alguma para continuar. Mas a vontade vital de lavar a alma acordava os débeis dedos de Helena, que se aconchegavam como receptáculos d'água para forjar uma nova existência em face do desânimo. Dentes. Língua. Lábios. Pescoço. Olhos fechados. E lá vinha de novo, em tão curto espaço de tempo fora do mundo dos sonhos, a saudade do travesseiro abandonado, acompanhada do suspiro que teimava em procrastinar a realidade. Sem sucesso. Pálpebras movidas por reflexo punham seus olhos abertos diante da janela que, descerrada, exibia a mesma paisagem artificial das manhãs anteriores. Água no fogo. Tudo sempre igual no café matinal de uma Helena qualquer que, ao levar a xícara à boca sem enxergar o próprio braço, avistava uma lendária helena dos quintais de sua infância.

Éramos duas. Helena e eu. Helena e helena. Helena e Helena dos Encantos. Helena e Helena dos Príncipes Guerreiros. Helena e Helena dos Cavaleiros Apaixonados. Helena e Helena das Aspirações Eternas. Helena e Helena das Causas Possíveis e Impossíveis. Helena e Helena dos Destinos Gloriosos. Helena e Helena dos Deuses Virtuosos. Helena e Helena de Tróia. Tróia Vitoriosa Sem Presente Para Sempre Ser Helena.

Éramos duas em uma. Éramos uma em muitas Helenas belicosas, ardentes, cobiçadas, ansiosas. Helenas manhosas, mas Helenas sempre despertas, em luta para manter os olhos abertos para enxergar além das janelas fechadas, para adivinhar além dos coracões cerrados.

Todas as manhãs éramos fogo esbraseando ânimos, éramos amor unido às selas dos cavalos, éramos paixão-guia nas jornadas de ida e de retorno, éramos a recompensa da fé legitimada, éramos Helenas orientadas pela graça, designando o sol nascente e o galardão do poente.


Café frio. Estômago vazio. Toda manhã, ela fazia tudo sempre igual. Não comia o pão, largava a xícara sozinha sobre a mesa e retornava ao banheiro, sem olhar para o espelho. Ligava o chuveiro. Olhava de soslaio para a água que escorria pelo seu corpo, sem enxergar a cor da própria pele. Suspirava lentamente, enquanto as pálpebras, ao se colarem, obstruíam sua visão. E lá vinha de novo, em tão curto espaço de tempo fora do mundo dos sonhos, a saudade de ser Helena de Alma Lavada.

Amanhã, amanhã, quem sabe, amanhã, Helena Helena. Amanhã, sem procrastinar a realidade, Helena Helena Verdade.

postado por: Gisele Centenaro 7:23 PM



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Terça-feira, Agosto 23, 2005

Malícia

Para os Irmãos Grimm

Ela penetrou no hall do edifício como se já tivesse passado por ali milhares de vezes. Um motoboy sacudia uma mochila no ombro, tão suja quanto o casaco preto de napa, encoberto por uma camada fina e úmida de poeira, colhida ao vento que espalhava garoa sob o céu cinzento lá fora. Um senhor aguardava - como se nada esperasse da vida - sair algo daquela mochila que permitisse ao guri chegar ao elevador.

Mas, ela, remexendo as coxas grossas sob a saia musgo, leve demais para o dia, caminhou direto para o botão iluminado e lambuzado. Apertou. Enquanto aguardava, acenou com a cabeça para o velho sentado, que respondeu com um olhar distante do mundo.

Lucinha subiu sozinha. Queria saltar no décimo sexto, sem pressa alguma. Sacudiu as ancas de um lado para o outro, puxando a calcinha. O salto facilitou os movimentos macilentos da moça, que levou a mão direita à pequena tira de renda preta, acomodada à toa.

Uma, duas, três portas à direita. Na quarta, entrou. Batom em riste na frente do espelho, pescoço esticado e seios empertigados. De repente, o reflexo sumiu. Apalpando, desesperada, o rosto, Lucinha não se via, não refletia, embora se sentisse tão quente como todas as manhãs. Passou as mãos, freneticamente, pelo corpo todo. A calcinha nem mais incomodava, mas estava lá, sob a saia fina. A malha da blusa, colada na pele, continuava expressando a existência do peito. Que chiste lhe pregava o maldoso espelho dos infernos no qual sempre se viu sem perguntas?

Um, dois, três minutos de angústia e um estridente ruído de vidro partido corrompeu o silêncio. Aos pés de Lucinha, os estilhaços pareciam troçar, reproduzindo em pedaços o que não mais foram capazes de mostrar por inteiro. Ela, pasma e tolamente, se procurava no chão dilacerada.

Não havia o que pensar, apenas uma janela. Pisando o espelho morto, languidamente recostou-se nela. O vento ainda espalhava garoa sob o céu cinzento lá fora. Lucinha acendeu um cigarro, não pensou, despiu peça por peça, e não sentiu frio. Olhou para trás. O malicioso espelho sorria dardejando. Ela aquiesceu, entregando a alma, distante do mundo, ao mistério infernal.

postado por: Gisele Centenaro 6:11 PM



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Vulto

Para um cavaleiro do século XVI

Leve como meus pensamentos, a cortina voa. Deixa-se carregar pela brisa, de um lado para o outro, ora se contorcendo, ora se abrindo inteira. Ansiosa, às vezes se joga pela janela, tentando alcançar o infinito. Mas sempre retorna, desiludida, presa aos trilhos como eu ao meu destino.

Tão delicada, tão frágil, quando a brisa pára, a cortina não respira, cai entregue ao desânimo, crente que esconde o mundo lá fora, sem se dar conta que pelo seu corpo diáfano continuo enxergando a vida, ainda que nublada, ainda que apenas pressinta as emoções em seus contornos lendários.

Triste como meus sonhos, a cortina estendida é sombra da morte, é o amor desfalecido, é a agonia do adeus murmurado a alguém que se foi sem nunca ter estado comigo. Sou nela ninguém, sou nela o nada que desejava ser tudo sem força para existir. Distendida, a cortina é minha mortalha.

Ah! mas quando a brisa sopra e meus pensamentos flutuam e suas dobras se espalham e meu pulso acelera e suas bainhas me tocam e meus pelos arrepiam e seus fios tecidos sorriem e meu coração com ela se arremessa ao vazio buscando o vapor dos sentimentos que queríamos para nós, ah! vem o vulto, o vulto envolvido pela paixão errante que chega sem ser convidado e nos toma por devaneio.

Vulto amado que abre a cortina para o mundo distante e, no mesmo instante, traz o mundo para dentro de mim, invadindo minhas veias excitadas e entregues ao prazer do sentir dois em uma fantasia purpurizada.

Vulto com olhos sem cor, que jamais conhecerei, porque não brilham, não lacrimejam, não falam, mas me vêem por dentro oscilante, com alma ofegante de mulher que ama um homem etéreo, prestes a experimentar o gozo quimérico.
E depois do gozo fictício, que não sacia nem extingue a vontade, afasta-se o vulto carregando com ele o fogo da paixão sonhada e mais um pedaço de mim, deglutido. A brisa cessa. Choro, atada ao quarto da solidão. A cortina fecha.

postado por: Gisele Centenaro 6:10 PM



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Solo

Para Camões, o lírico

Um dia eu comprei um barco. E o dinheiro acabou. Mas como também andava com falta de ar, não era por falta de dinheiro que eu ia ficar parada, com os pés no chão. Lancei-me ao mar, no pequeno barco, sonhando com os peixes. De dia, pensava na vida. À noite, sonhava com ela. E pouco tempo depois, não sabia mais o que era vida vivida, o que era vida sonhada. Um paraíso deslizante que me levava para perto dos peixes e longe de toda gente.

Numa tarde, o barco seguia de mansinho, eu olhava pro nada, talvez acordada, e o Sol, sempre intrometido, perguntou, com ares de astro, bem juntinho do meu ouvido: "Por que você não me ama?".

Assustei-me de início, não com a voz, mas com o tom de solidão do Sol, um rei tão brilhante, tão quente e tão adorado. Minh`alma feminina, navegante sem porto, achou a pergunta intrigante, excitante até, mas preferiu ignorar o Sol galanteador. Afinal, ele já tocava minha pele despudoradamente há dias, sem resistência, então, pra que fazer uso da palavra, soprada no vento, se já pertencíamos um ao outro?

Mas o Sol não se conformou, nem se aquietou. De manhã, lambia-me inteira, bronzeava meu dorso, acariciava meu rosto, afagava meus seios, fazia cócegas na minha barriga e abraçava minhas pernas como se fossem únicas sob o céu. À tarde, eu já esgotada de suas carícias, me deixava no repouso da volúpia, a errar em pensamento, quando ele, abrasador, voltava a me perguntar onde estava meu amor.

Quando o ardor do Sol, meses depois, penetrou pelo meu peito, finalmente bronzeando meu coração, quebrei o silêncio e me pus a conversar com ele.

- Você tem o amor de todas as mulheres do mundo, todos os dias, por toda a eternidade. Tem a todas porque é Um com todas, em perfeito silêncio. Por que, então, quer que nossa relação seja diferente? Por que quer saber deste amor em palavras que não lhe pertencem? Se você é o Sol... tem o calor como meio, é fogo quieto que consome a frieza mais íntima de uma mulher... E sabe que o que em mim um dia foi frio hoje arde tanto que minh´alma está prestes a se derreter aos seus pés.

- Amada, não me cale. Sofro mudo há séculos. Quando você pensa que durmo, à noite, continuo queimando, do outro lado do céu, onde busco o ar que me falta depois de ter passado o dia me entregando a você. Te dou tudo que sou, tudo que tenho, todos os meus raios são teus, te envolvem, te arrebatam, te estupram. Mas não consigo trazê-la pra mim. Por mais que eu te cinja, por mais que eu te explore, você segue deslizando, rumo ao nada, sem que eu te tome como minha por inteira. Ao meio-dia, grito de ardor, dia após dia, sonhando com o gozo que me é de direito. Chego o mais perto de ti que posso, e quando me vejo totalmente cego de prazer, te penetrando em fogo, começo a desfalecer antes de crer em ter e vem, então, o entardecer. Mais um dia finda. Exausto me vejo obrigado a reaver minhas forças do outro lado do mundo, onde sonho com uma nova manhã, com o recomeço das carícias sem fim, sempre te desejando mais, mais, mais e insuportavelmente lutando contra o sofrimento de quem ama sem gozar amando. É verdade que posso acariciar todas as mulheres do mundo, mas nenhuma delas nunca se entregou a mim como você, nesse barco pequeno, como refém do Sol amado e amante, longe de toda a gente, me chamando e me querendo todas as manhãs como único Ser do seu universo. Dos peixes, tenho ciúme, mas eles jamais te tocarão como eu, que conheço cada palmo do seu corpo em paixão silenciosa, mas consagrada ao Deus que sou em ti. Te falo porque quero pedir que me socorra, que venha a mim para que eu possa explodir dentro de ti, fazendo-te minha em meu fogo eterno, fazendo-te minha chama ainda que a noite pense que nos cubra. Quero amar você por todos os caminhos e, então, você saberá o que é ser uma estrela.

Esmoreci quando deixei que o Sol me invadisse. E conheci o Amor maior que o mundo. Morri gozando. Nosso gozo encontrou o mar em tempestade. Ao meio-dia. À noite, eu ainda era chama. Era uma estrela que o Sol levou para o céu. Eternamente, sua amante.

postado por: Gisele Centenaro 6:08 PM



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Lisuras

Nunca houve por ali ninguém cuja face se assemelhasse à dele. Havia algo de sutilmente tenebroso em seus lábios, meio arroxeados e absolutamente secos. O nariz pontudo, mas ao mesmo tempo grosso, fazia prender a respiração dos pássaros. Muitos pássaros nos visitavam todas as manhãs, inclusive no inverno. Naquelas curvas pastosas do verde marrom de minhas terras, deixei tantos pedaços de minh'alma que não consigo mais fazê-la inteira. Tudo se foi. Tudo ficou naquelas curvas que de meu banco de madeira tão liso, tão liso, depois de tanto sol, tanta chuva, eu avistava, soluçando, e, dentre dias de tristeza ensolarada, sorria esperar um retorno impossível. Os mergulhos que meu espírito era capaz de fazer, enquanto as nuvens passavam sobre mim e meu banco, foram nos fazendo velhos, moldados à nossa própria conformidade. Ainda hoje, mais velha que outrora, sinto no dorso a madeira fria e carinhosa de meu banco de jardim, querido confidente de minhas dores secretas em coração. Falávamos dos pássaros, pouco, porém, pensávamos neles naqueles dias de encantamento, quando um nariz desconcertante vigiava nossos pensamentos. Era sempre no cair da tarde que ouvíamos seus passos lentos e constrangedores. Era quando suspirávamos para buscar alento nos pulmões antes do "boa tarde" distintivamente amargurado. Sabíamos que cada passo daquele homem nos afastava mais. Eu e meu banco sabíamos desde sempre que a despedida se aproximava toda tarde, todo passo, todo suspirar - ficava ao longe a curva pastosa mais alta, sussurrando adeus. Somente ele, meu banco de jardim, e eu escutávamos esse lamento, quando placidamente consentíamos que o tempo passasse, porque não o podíamos deter. Era um homem aterrorizante, do tipo que nunca por ali esteve. Trazia com ele a despedida de mim mesma, a distância entre mim, meu banco de jardim. - Boa tarde, saudade! Uma saudade que não tem mais fim...

postado por: Gisele Centenaro 6:06 PM



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O menininho cego

Para Isis

A praça era bem pequenina, mas era só atravessar a rua para sentir aquele cheiro gostoso de grama molhada, que todo fim de tarde entrava pelo seu nariz, depois que o Seu Pablo, zelador do prédio, decidiu zelar também pelas árvores de tronco duro que moravam debaixo do céu.

Com uma paciência infinita, o imigrante filho de espanhóis adotou a pracinha com o coração e sempre dizia: "Não escrevi um livro, não plantei essas árvores, mas tenho um balde que não me custa encher d´água pra dar de beber a quem tem sede".

Era tão bom aquele cheirinho que, assim como os passarinhos lamuriosos, Eros procurava, ao entardecer, um canto da praça pra ficar escutando a noite descer. Tateando com seu bastão de apoio o caminho, o menininho cego confiava nos sentidos que a vida lhe permitira ter para fazer o breve passeio sozinho, pois ali, em meio à magia da natureza, ainda que acanhada, até seus olhos mortos se sentiam acesos.

Mas foi num dia de menos luz do que espera quem inala a primavera que uma voz miudinha e atrevida pousou perto do ombro esquerdo de Eros, perguntando: "Quer ver o que tenho escondido entre as mãos?" Um tanto assustado e até aborrecido pelo atrevimento daquela feminina fala desconcertante, Eros respondeu: "Mesmo que eu pudesse, não ia querer, não".

Nem os passos de alguém indo embora o menininho cego ouviu depois de seu ríspido "não". Silêncio. Puro silêncio, como se nenhum som tivesse cortado o ar, instantes atrás, além do farfalhar das folhas ao vento e dos agudos das delicadas aves, de sempre suas companheiras.

Pensando ser a imaginação que lhe pregara uma peça, no dia seguinte Eros já nem lembrava mais daquela voz fininha, quando, de repente, ela se fez outra vez: "Quer ver o que tenho escondido entre as mãos?"

Durante um mês inteiro, menininho deu a mesma resposta, retrucada por aquele silêncio incendiário que foi invadindo seu ser até não mais ser suportado. Enfim, o mistério se fez dor e, então, Eros gritou, repetidamente: "Quero, quero, quero, quero, quero, quero, quero!"

Na mesma hora, ele sentiu um quentinho no peito ensurdecedor, enquanto a voz de serpente encantadora, parecendo muito, muito, distante, murmurava palavras que ele hoje, homem feito, ainda mais cego e eternamente torturado de saudades de sua pequena praça, chora nunca ter compreendido.

postado por: Gisele Centenaro 5:49 PM



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Quinta-feira, Agosto 18, 2005


Amargura

Para Victor Hugo

Tarde de sol, mais uma tarde de sol, de vento dourado, de gosto salgado. Amargos, porém, os pensamentos longe de ti. Curvas vigiadas de uma consciência que não se tem e voa, voa, repousa na árvore mais próxima, espiando o céu, arrancando o véu, com dor de espinho, e mais um vôo, mais um pouso, mais um gozo mentiroso, e o amarelo do dia ganha o laranja, que ganha o vermelho antes do anoitecer.

Te ver neste entardecer, te ter nesta insensatez, porque a tarde é de sol, mais uma tarde de sol, de vento dourado, de gosto salgado. Respingos d´água dão brilho à grama do jardim de Paris, tão feliz, cores soltas nas flores, nas vestes, e alguém canta, enquanto tua lembrança me encanta esculpindo flocos de ar. Na folha, na grama, n´água, no céu, no amarelo, no laranja, no vermelho, antes do anoitecer, em meio ao entardecer, você.

Nunca quis te fazer verso, se não posso engoli-lo... é ceder à sua não existência nesta praça, neste estado de graça, sem benção. Alguém canta. Si bemol em tarde de sol, mais uma tarde de sol, de vento dourado, de gosto salgado. Paris tão alegre, na grama, no céu, no véu que forra meu coração, dourado, com respingos d´água, de lágrimas, soltas nas flores, nas vestes que dôo ao meu ser, que não se tem e voa, voa, repousa na lembrança mais próxima, com dor de espinho, antes do anoitecer, em meio ao entardecer, você.

Houve um sonho, ouve, de dó a dó, melodia completa, com muitos violinos, nesta praça, neste estado de graça, abençoado pela tua presença de gosto doce, nas curvas da flauta, vigiando as vozes sem corpos no êxtase de Paris. Que feliz tarde de sol amarela e dourada, ao som da flauta encantada do teu desejo em mim, de me querer e ter feito criança sem véu com sabor de mel. Uma porta aberta no céu laranja, vermelho, antes do anoitecer, em meio ao entardecer, você.

Repousou o sonho no pecado do não. Foi-se embora a beleza de Paris dourada, do desejo alcançado, do querer, querido, ser as curvas do teu corpo inconsciente, em dó, em mi, em sol, em lá de violino esculpido na grama, n´água, na saliva da tua amada. Gosto amargo em tarde sol, mais uma tarde de sol, antes do anoitecer, em meio ao entardecer, sem você.

postado por: Gisele Centenaro 3:27 AM



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Quarta-feira, Agosto 17, 2005




Aroma de chocolate

Para Pessoa

Dia destes olhei para trás e vi que um homem me seguia. Pela calçada apressada, sol já posto, tentei andar mais rápido. Mas, assustada, tropecei. Como uma boba, cai no chão, sentindo uma dor insuportável, o joelho arranhado e o tornozelo já inchando. E enquanto lágrimas de vergonha começavam a socorrer minha face vermelha, aquele homem esquisito, usando um antigo chapéu, ternamente apertava seus dedos nos meus braços, não como quem quisesse me ajudar a levantar, pois suas mãos, em verdade, me amparavam sem pedirem que eu me movesse.

Levantei o queixo e dei com os olhos dele invadindo os meus. Lá no fundo, bem ao centro, meio apagada, vi uma mansarda. Foi então que me sobreveio uma vontade irresistível de comer chocolate. Na minúscula janela da mansarda, um homem triste fumava. E eu ali, caída na rua, desejava, sôfrega, desembrulhar chocolates de papéis de prata.

O torpor foi me fazendo levitar, como se todo açúcar do mundo se infiltrasse no meu sangue. Do alto do meu delírio percebi que o homem esquisito de chapéu antigo sorria, pouco, mas sorria. Sem saber ao certo o que e por quê o fazia, grudei minha boca na dele, sugando lábios e buscando sua língua.

- Ai, que gosto doce de chocolate derretido, cremoso, espirituoso.

Foi ali, naquela hora, que nasci.

E quando conto essa história em forma de conto que a poesia rouba, as pessoas insistem em falar de metafísica. Calo-me e ouço, embora meu coração voe sempre, sempre, para a mansarda, onde aspira a fumaça daquele fumo picado e se lambuza inteiro de chocolate pastoso, aromatizado pela saudade.

- Ai, que gosto doce de amor derretido, cremoso, espirituoso.

Foi ali, naquela hora, que morri.

postado por: Gisele Centenaro 10:41 PM



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Libertango

Para Piazzolla

Jorrou um dia, pela boca, o sangue. Eu latejava por dentro e o sangue jorrava. Mil navalhas cortavam meu estômago. Doía, doía, doía. E o sangue não cessava. A cabeça pendia inerte, mas eu ainda via. Um desfile de fantasmas pegajosos, movendo lábios sem som, arregalando os olhos sem cor. Bailavam os fantasmas na minha frente, por trás, e corrompiam, além da mente, o ar descrente que teimava em não entrar pelo meu nariz.

E aquele sangue fino, sujo, inimigo, cuspia minha história fétida para que os fantasmas dela fizessem troça. Quis matá-los, todos, mas o sangue se esvaía e me diluía em vômito. Restou-me o tango. Dançar o tango em exaustão, mais uma vez, uma última vez, meu tango, minha paixão.

No compasso da melodia, o tango me percorria, pedaço a pedaço, apunhalando agora meu coração.

- Saiam, saiam, todos. Afastem-se de mim. Este tango é só meu. Só eu. Sou eu quem escolhe a direção. Saiam, saiam, todos. Afastem-se de mim. Este sangue é só meu. Só eu. Sou eu. Desistam de me sugar. Escutem, escutem o acorde, agora, mais alto, mais forte. É todo meu. Olhem para os meus pés descalços, colados ao chão. Não, não sou eu quem teme a escuridão. Tiro a meia. A perna desnuda roça o teu pensamento. Gruda no teu desejo. Abraça teu pescoço e te arremessa ao abismo, onde relaxa, se solta, me procura e me agarra. Sou eu o tango. Sou eu o sangue. Sou eu que te faz queimar sem alcançar. Não chora, não pede pela valsa. EU SOU TANGO. Sou vermelha. Sou palmeira. Sou a força que te esgota. Sou a morte na vida sem ritmo. Sou a agonia, a agonia, a agonia. Sou lixo. Sou o rito inacabado dos passos desencontrados. Where did you come from? Where? Where? Quando danço, eu sou. Eu sei. Toda noite, todo meu coração, todos os meus dias, minha alma is out. What do you need? Venha a mim, morrer em mim. Somos um, quando você está em mim e eu in you. É o tango acabando, você nunca me amando. Você no abismo. Você no sangue. Você nos fantasmas. Você nos lábios mortos. Você nos olhos secos. Você na galáxia da infâmia. Você nos passos secretos que dou, atados ao destino do assoalho vadio. Você no vento assassino, que a brisa deixou. E agora? É a hora...

Caem, todos, mudos, tétricos, etéreos. Uivam os lobos, loucos lobos, que desafiam meus acordes de tristeza. Lobos absortos, que cheiram o sangue dos pobres mortais à beira da vida. Petrificados, os fantasmas se debruçam sobre si mesmos. Meu tango está acabando. Meu sangue é mais nada.

- E você, o que é? Quem é? É ninguém, é o maior ninguém do mundo. É um nada que foi tudo nas minhas tripas, na corrente que me ligou à vida. É um nada que tomou conta de tudo que em mim foi água, e hoje é sangue, é sangue vermelho, vertido fora. Estou seca, apodrecida e não sou mais tango. Sou enterro sem terra. Sou esterco de amantes. Sou pecado sem guerra. Sou ira sem tremor. Sou apenas o que passou. Sou morte, agora, ora.

postado por: Gisele Centenaro 10:05 PM



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